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Argentino que vale a pena

Lúcia Helena de Camargo

 

Humor ácido, atores ótimos em seis histórias sobre vingança dirigidas com precisão por Damián Szifrón, também autor do roteiro. Trata-se do argentino "Relatos Selvagens"  (Relatos Salvajes, 2014, Argentina, Espanha, 122 minutos). Em DVD, blu-ray, via streaming, TV a cabo ou em alguma exibição na TV, não perca. É hilário, daquelas comédias que fazem o dia ficar mais leve.

A verve se anuncia nos créditos iniciais. Junto com os nomes dos profissionais que trabalharam no filme são exibidas fotos de animais da savana africana. Selvagem.

O longa bateu estrondosos recordes de público na Argentina, onde três milhões assistiram. Isso dá 7% da população do país – que tem em torno de 40 milhões de habitantes. Nessa proporção, seria como se 14 milhões tivessem visto o mesmo filme no Brasil.

Um dos motivos do sucesso pode ser o cuidado na condução da narrativa. Mesmo sendo dividido em seis partes, não perde a unidade. Em todos, pessoas comuns, inseridas em circunstâncias que podem – ou não – acontecer no dia a dia, são levadas a reações bizarras. Alguns se surpreendem com a própria natureza selvagem e sanguinolenta que aflora.

No primeiro episódio, um estranho voo reúne amigos, parentes, conhecidos e inimigos de um personagem primordial naquela situação, o piloto. Breve, serve de fio condutor ao segundo, que mostra a pacata dupla de mulheres no restaurante que administram. Um mafioso sem escrúpulos que causou o suicídio do pai de uma delas vai desestabilizar a noite. E tudo pode acontecer entre a cozinha e o salão.

O episódio estrelado por Ricardo Darín, kafkaniano, vai despertar a solidariedade de quem já se viu em injustiças causadas pelo excesso de burocracia e falta de inteligência de funcionários de órgãos públicos. O ator, onipresente no cinema argentino, vive um engenheiro, pai e marido de classe média que vê a vida desmoronar depois de ter o carro guinchado por supostamente parar em um local proibido. A ação se passa em Buenos Aires, mas poderia ser São Paulo, Nova York, Berlim. A falta de raciocínio lógico existe em toda a parte atrás de certos balcões.

Envolve automóveis e seus motoristas também a história que começa com uma tentativa de ultrapassagem, vai tomando proporções insanas e acaba em um surreal boletim de ocorrência. E ainda outra, sobre um atropelamento cujos desdobramentos vão revelando os medos mais profundos e desacertos de uma família rica.

O relato sobre a festa de casamento traz todos os clichês e breguices que caracterizam essas reuniões. Da sessão de fotografias de infância dos noivos projetados em slides na parede ao ponto alto, com o brinde e corte do bolo, passando pela obrigatória valsa do casal e o lançamento do buquê. Porém, um fato novo e avassalador chega até os ouvidos da noiva e tudo será colocado à prova, da compostura da elegante mãe do noivo ao real motivo da celebração.  Quem algum dia já se entediou numa dessas festas e aproveitou para ponderar sobre quão hilários podem ser os usos e costumes, vai rir muito, pois nada escapa ao afiado olhar de Damián Szifrón.

O diretor

O diretor Damián Szifrón, que veio ao Brasil para a Mostra de Cinema para lançar seu filme, nasceu na Argentina em 1975. Criou as séries de televisão Los Simuladores (2002) e Hermanos y Detectives (2003). Dirigiu os longas-metragens El Fondo del Mar (2003) e Tempo de Valentes (2005). Relatos Selvagens é seu terceiro longa-metragem, que conta com coprodução de Pedro e Agustín Almodóvar. O filme foi selecionado para a Competição do Festival de Cannes.



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