ARTIGOS

Ação de Graças


A quarta 5ª feira de novembro é Dia Nacional de Ação de Graças

Edgard Steffen

Em ação de graças e comemoração aos 60 anos de nosso casamento, reescrevo texto publicado há 10 anos. Peço perdão aos que tiverem paciência de lê-lo até o fim. Em síntese autobiográfica indulgente deleto defeitos, enfatizo atributos.

Sou descendente de gente honesta. Forte. Física, moral e espiritualmente. Meu pai e minha mãe desdobraram-se para me dar segurança, proteção, orientação para a vida. Alimentação condizente com a renda familiar. Refeições simples eram preparadas com sabor especial, porque o carinho de quem as preparava suplantou modismos da culinária e apelos dos fabricantes de alimentos. Na mesa, rodeada de irmãos e irmãs, a comida fumegante era consumida depois que as cabeças, curvadas para agradecê-la, voltavam à posição vertical.

Nasci numa cidade ensolarada, de ar limpo. Cercada de campos florentes, vastos e bonitos; tão bonitos que poderiam ser comparados a um largo sorriso do horizonte a saudar o nascer e o cair do sol, como registram os versos de Acrísio Camargo, inseridos no hino oficial do município. Nesse berço querido, a planta de meus pés pisou o solo de ruas empoeiradas ou lamacentas, sem a lâmina asfáltica impermeabilizante. Menino descalço, em dias de chuva forte, chutei águas na enxurrada das sarjetas e aproveitei a corredeira para soltar barquinhos de papel.

Aprendi as primeiras letras numa escola em que as professoras eram chamadas "Senhora", "dona Fulana" ou "Professora Dona Siclana" e não de "você", "tia" ou "meu". Continuei aprendendo o que necessário fosse para entender este mundo de Deus e dos homens. Muito me ajudou o que aprendi na escola dominical da igreja presbiteriana de Indaiatuba. Contribuiu para a formação do caráter e aprendizado do exercício da cidadania. Jovem, ingressei num curso que me preparou para trabalhar com amor e dignidade numa profissão que incluiu o auxílio ao próximo, e me fez partícipe mais das soluções que dos problemas de minha comunidade.

Em nossa família, Natal era preciso, comprar não era preciso. A comemoração centrada no Menino-Deus. Permitida a existência do simpático velhinho dos sonhos infantis, mas proibida sua atuação como vendedor de utilidades e futilidades.

Na família ampliada, convivi com tios, tias e primos (as) orgulhosos de suas origens, instituições, trabalhos, crença. Ligados por laços de sangue e amor cristão, ofertaram-me apoio e hospitalidade. Comigo compartilharam alegrias e foram solidários nas tristezas inerentes à ventura de viver.

Vivi num tempo em que os rios abasteciam as cidades com água limpa. Aprendi a nadar em sua branda correnteza. Acomodado no barranco, protegido por árvores da mata ciliar, pude comparar minha destreza com a dos lambaris e piaus. Na comparação, mais fracassos que vitórias. Com os dourados nas corredeiras, compreendi que se entregam e exibem ouro das escamas à luz do sol, somente após duras lutas ponteadas por saltos acrobáticos. Aprendi com eles. Na vida, além de lutar, fazer acrobacias.

Obrigado a viver em vários lugares na busca de graduação, morei em Itu, Salto, Campinas e, finalmente Sorocaba. Aqui encontrei famílias, professores, amigos. Muitos amigos. A Terra Rasgada me acolheu. Aceitou-me pelo que eu era (e sou) e não pelo que possuía.

Das famílias, destaco a dos Barros. Nela encontrei mulher bonita e virtuosa para amar e compartilhar planos de vida. Para toda vida. Esteve ao meu lado na saúde e na doença. Fértil, deu-me filhos sadios física e espiritualmente. Fez-me sentir bem-aventurado como descrito na profecia do Salmo 128:3: "Tua esposa, no interior de tua casa, será como a videira frutífera; teus filhos como rebentos da oliveira à volta de tua mesa".

Assim, posso orar como Michel Quoist: "É maravilhoso, Senhor, ter tão pouco a pedir e tanto a agradecer."

Sorocaba, Dia de Ação de Graças, 2017.


Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço -
edgard.steffen@gmail.com



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