ARTIGOS

Cargas violentas


Aldo Vannucchi

Duas notícias me ferveram na cabeça dias atrás. A primeira, dia 17p.p., quando quatro bandidos roubaram mais de três toneladas de explosivos, na vizinha Salto de Pirapora. Quantos estragos e maldades aprontarão eles por aí! Não foi pra isso que o grande químico sueco, Alfredo Nobel, criou a dinamite, esse composto químico altamente inflamável, com que o mundo todo ganhou enorme facilidade nos trabalhos de grandes construções, tais como túneis e canais. Mais que isso, foi pela patente da dinamite, que Nobel se tornou bimilionário, e, como pacifista e filantropo, encaminhou também outra criação notável, a Fundação Nobel, de profundo significado a toda a humanidade.
A outra notícia lancinante, do mesmo dia, veio da capital federal e correu mundo: um menino de oito anos desmaiou de fome em uma escola pública, na vizinhança dos palácios de Brasília. Chamado pela professora, o agente de saúde do Samu constatou a doença: falta de comida. E pensar que, segundo o alerta recente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, 1,3 bilhão de toneladas de comida é, anualmente, desperdiçada ou se perde, no Brasil, ao longo das cadeias produtivas dos alimentos.

Essas duas bombas mortíferas, a dinamite e a fome, me fizeram lembrar as seguintes palavras de um contemporâneo de Alfred Nobel, o filósofo Nietzsche, radical e explosivo: "Conheço o meu destino. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo, de uma crise como jamais houve sobre a terra, da mais profunda colisão de consciências... Eu não sou um homem, sou dinamite". Essas palavras estão em "Ecce Homo", última obra escrita por ele, algumas semanas antes de sofrer a perda total da razão.

Sempre acometido por delírios de grandeza, Nietzsche não era nenhum santo, como ele mesmo afirma nessa obra, mas queria ser tomado como modelo. Modelo de quê? De crítico polêmico da hipocrisia, da mentira e da bajulação. Profeta e poeta, Nietzsche será sempre um autor a se discutir, porque ele é realmente dinamite arrasadora, máxime na sua contundência contra a religião cristã.


Do seu brado blasfemo "Deus morreu! Deus continua morto!", ele partiu para a denúncia do que os cristãos fizeram de Deus, porque "o cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, e transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida plena". Para Nietzsche, o evangelho, que é boa nova, morreu com Cristo na cruz. Mas o filósofo se foi e o cristianismo permanece e se alguma coisa dele se pode confirmar é que, de fato, Deus continua morto na vida dos que o consideram apenas como um Deus metafísico, uma simples ideia transcendente, adormecida no subconsciente, inerte e ineficaz. Como já disse alguém, é gente que crê que crê. Vive um mero fazer de conta, porque crer, na visão cristã, é aderir à pessoa de Jesus Cristo, um Deus que se fez carne, um ser supremo, real, objetivamente existente.

Esse cristianismo Nietzsche não condenou. Suas dinamites de anticristo visavam os que se dizem cristãos, mas não têm vida evangélica, não põem o amor como valor central do seu pensar e agir.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br



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