ARTIGOS

"Phoenix": variações sobre o nazismo


Nildo Benedetti
nildo.maximo@hotmail.com

Nos dias 24 deste mês e 1º de dezembro exibiremos na Fundec dois filmes do diretor alemão Christian Petzold, nascido em 1960.

"Phoenix", de 2014, transcorre logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Nelly Lenz, uma cantora judia, está com o rosto envolvido em bandagens, porque foi atingida por um tiro nos últimos dias da guerra, quando estava no campo de concentração de Auschwitz. Ela é submetida a uma cirurgia plástica, porém seu novo rosto, obviamente, não é exatamente igual ao original. Ela procura e reencontra o marido Johnny na casa noturna Phoenix, onde ele trabalha como garçom. Ela não revela sua verdadeira identidade e se diz chamar Esther. Johnny não a reconhece, mas quer tirar proveito da semelhança física da moça com a ex-esposa que ele dá por morta. Arquiteta um plano em que Esther se fará passar por Nelly para ter acesso à herança em propriedades e dinheiro que haviam sido confiscados da sua família pelos nazistas e a que ela tem direito, agora que todos os seus familiares morreram nos campos de concentração; Johnny propõe que ambos dividam o que for arrecadado na operação e a moça decide entrar no plano do marido.

Em várias situações, o filme descreve o ambiente de delação iminente que reinava na Alemanha quando Nelly foi presa por ser judia. Parece que todos os amigos do casal são suspeitos e agora, terminada a guerra, tratam de se livrar dos indícios de terem colaborado com o nazismo. Depois da queda de um regime totalitário violento ou depois da retirada de tropas invasoras, é comum ocorrerem situações de temor de revides, traições, mentiras, violência, injustiça. Culpados tentam salvar a pele, prejudicados procuram vingança, homens e mulheres que nada de mal fizeram são injustamente acusados e punidos, homens e mulheres que muito mal fizeram são ignorados ou mudam de lado e se fazem de juízes. Esse clima caótico e de alto risco é sutilmente mostrado em "Phoenix", sem nenhuma violência.

O colaboracionismo com o nazismo existiu por toda e Europa e em todas as camadas sociais. Foi movido por interesses de toda ordem e justificado por uma ampla mistura de motivos que iam da simpatia pelo regime por suas realizações econômicas e sociais à crença na necessidade civilizatória de extermínio das "anomalias" que impediam a tão almejada perfeição da sociedade: liberais, comunistas e socialistas, deficientes físicos, povos do Leste europeu, ciganos, judeus, artistas de vanguarda, inimigos do novo homem representados pelos opositores do nazismo e assim por diante.

Johnny simboliza a parcela dos que preferem ignorar, ou esconder, tudo o que ocorreu naqueles anos sombrios da história da Alemanha e apenas visam a encontrar modos de sobreviver materialmente o presente. Nelly, como a Fênix mitológica, ressurge das próprias cinzas dos campos de concentração e inicia uma nova vida, procurando retomar a suposta felicidade de antes da guerra. Ela é movida por amor a Johnny e personifica os que esqueceram os padecimentos do passado e olham para o futuro.

Serviço
Cine Reflexão
"Phoenix" de Christian Petzold
Hoje, às 19h, na Fundec (rua Brigadeiro Tobias, 73)
Entrada gratuita



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