EDITORIAL

Carga explosiva


Há uma legislação rígida sobre o comércio, transporte e posse desse tipo de material, mas pelo jeito, não há qualquer fiscalização mais rigorosa
 
Quatro homens armados com fuzis e pistolas invadiram uma empresa de Salto de Pirapora na noite da última quinta-feira, dia 16, e furtaram três toneladas de explosivos. Os ladrões chegaram à empresa do setor químico por volta das 21h e renderam quatro funcionários. Sob a mira de armas, essas pessoas teriam sido obrigadas a transferir 124 caixas de explosivos que estavam em um caminhão, em uma carga pronta para ser despachada ao sul do País, para outro veículo em posse dos assaltantes. Ao todo foram levadas três toneladas e cem quilos de dinamite, além de três caixas de pavios. Esse certamente foi um dos maiores roubos de explosivos já registrados no País e foi o segundo em menos de uma semana. No domingo anterior, um bando invadiu uma mineradora de Santa Rosa do Viterbo, próximo a Ribeirão Preto, e levou 50 quilos de dinamite, uma quantidade modesta se comparada com a levada de Salto de Pirapora.
 
É incalculável o estrago que esses explosivos podem fazer e o número de roubos em que esse material poderá ser utilizado. Segundo um especialista em explosivos do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar do Estado de São Paulo, a carga de explosivos levada pelos ladrões é suficiente para a explosão de dez mil caixas eletrônicos. Ou seja, somente com o produto desse roubo as quadrilhas especializadas em atacar transportadoras de valores, agências bancárias e caixas eletrônicos têm munição para vários anos. Em um país com a presença de terroristas seria suficiente para armar milhares de homens-bomba. Segundo revelou a reportagem do Cruzeiro do Sul, o depósito onde estava guardada a carga de explosivo é filial de uma empresa que tem sede em Araçariguama. O paiol era mantido em Salto de Pirapora para ficar mais perto das mineradoras que operam no município. A cidade, rica em calcário e outros minerais, é alvo preferencial de ladrões de explosivos. Há quatro anos, pelo menos 250 quilos de explosivos foram furtados de uma indústria de cimento. Os ladrões arrombaram a porta do paiol onde estava guardado o material.
 
A pergunta que fica é a seguinte: como é que quantidades tão grandes de um produto que deveria ser muito bem controlado ficam depositadas em empresas mineradoras ou distribuidoras sem qualquer esquema especial de segurança? O roubo da última quinta-feira foi um exemplo do despreparo para lidar com um material altamente perigoso. Foi como tirar doce da mão de uma criança. Alguém tem ideia do número de mortes, estragos, destruição e morte poderão resultar nos assaltos onde forem utilizadas as três toneladas de dinamite roubadas?
 
Há algo muito errado na fiscalização e transporte de explosivos no País. Do jeito como aparentemente vêm sendo feito, beira a irresponsabilidade. Há uma legislação rígida sobre o comércio, transporte e posse desse tipo de material, mas pelo jeito, não há qualquer fiscalização mais rigorosa. O resultado é o aumento do número de roubos e furtos de caixas eletrônicos e empresas de transporte de valores. A polícia ainda não tem qualquer informação de onde foi parar a carga explosiva. Já imaginaram o dano que pode causar se for manipulada de maneira errada e explodir em seu esconderijo que pode ser em local densamente povoado? Ou quanto vale essa carga de dinamite para as facções criminosas?
 
De acordo com a Confederação Nacional de Vigilantes e Prestadores de Serviços, o número de ataques continua crescendo no Estado de São Paulo. De janeiro a julho deste ano, segundo a entidade, houve um aumento de 58% dos ataques nessa região. Houve inclusive uma migração desses crimes para cidades pequenas, com pequena estrutura de segurança. No mês de agosto, por exemplo, foram 13 casos em pequenas cidades do interior para cada ataque na Capital. De janeiro a meados de agosto, segundo e entidade dos vigilantes, foram registrados 494 ocorrências de roubos e furtos em caixas eletrônicos no Estado de São Paulo, dados obtidos com base em relatório da Polícia Civil.
 
Tendo em vista a facilidade com que os bandidos têm acesso a explosivos, infelizmente podemos esperar muito mais ataques nos próximos meses.
 



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