ARTIGOS

O que sua roupa tem a ver com o meio ambiente?

"Como qualquer outro produto industrializado, as roupas passam por processos que geram impactos ambientais"
Maria Júlia de Lara Battaglini
com Morgana Broglio Paiva e Sofia Coelho Moreira
Você, leitor, já parou para pensar no impacto que suas roupas causam no ambiente? Este ano a BBC Brasil lançou uma matéria evidenciando que "é fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda" (http://www.bbc.com/portuguese/geral-39253994). Esta notícia traz à tona um assunto pouco abordado na sociedade, porém de importante cunho ambiental e humano.
Como qualquer outro produto industrializado, as roupas passam por processos que geram impactos ambientais. Pensando nas roupas de algodão, podemos citar impactos diretamente no solo devido ao uso de agrotóxicos no seu plantio, que também contaminam lençóis freáticos e afetam a saúde do trabalhador rural e das comunidades vizinhas. No entanto, se você prefere tecidos sintéticos, como o poliéster, saiba que este é feito a partir de derivados do petróleo e é quimicamente igual ao PET das garrafas de refigerante, cujo tempo de degradação no ambiente é indeterminado, sendo estimado em mais de duzentos anos.
Independentemente do tipo de tecido, ao longo do processo fabril são utilizados diversos produtos químicos persistentes no meio ambiente, como corantes e metais pesados utilizados para sua fixação. Além disso, outro impacto causado pelo processo de confecção é a geração de retalhos, aumentando a quantidade de resíduos sólidos. Segundo a Associação Brasileira de Indústria Têxtil (ABIT), são desperdiçados aproximadamente 12% dos tecidos (1.100.000 toneladas ao ano) devido ao design não planejado, em função das sobras de recortes de peças.
Como um exemplo próximo de alta geração de retalhos podemos citar a região do Bom Retiro, em São Paulo, onde são descartados cerca de 12 toneladas por dia de retalhos, que em sua maioria vão parar em aterros. Uma parte destes, porém, acabam sendo deixados à deriva em vias públicas, quando catadores apenas interessados no saco plástico, despejam o conteúdo no chão. Assim, esses retalhos geram poluição, entupimentos, enchentes e outras consequências urbanas.
Além da questão ambiental, a indústria da moda tem alto impacto social pelas condições de trabalho oferecidas em algumas confecções e fábricas, onde as leis trabalhistas não são aplicadas. Este descaso só foi evidenciado em 2013 após um acidente numa fábrica de Bangladesh, onde houve o desabamento de um prédio acarretando a morte de mais de mil trabalhadores e deixando mais de 2.500 feridos, o que mostrou a problemática de relações trabalhistas e sociais no setor têxtil.
A fatalidade ocorrida em Bangladesh chamou a atenção de diversos designers no mundo que, sensibilizados, fundaram a Organização Não Governamental chamada Fashion Revolution, que vem se projetando em vários países, inclusive no Brasil, promovendo ações de conscientização sobre a origem das roupas que usamos.
Diante dos impactos sociais e ambientais ocasionados por esta indústria dependente do consumismo, você não precisa deixar de comprar roupas, mas sim tornar-se um consumidor mais consciente. Nota-se uma transição para atitudes mais sustentáveis dentro do mundo da moda, como eventos, documentários e a adoção de posturas mais verdes e humanas por parte de pequenas e grandes marcas. Outro exemplo é a formação de grupos de incentivo a troca ou venda de roupas usadas, como o "Brechó UFSCar" e "Enjunesp", criados no Facebook por estudantes de Sorocaba. Cabe a nós consumidores incentivarmos essas atitudes, dando preferência a artigos produzidos por moda mais limpa em todos os sentidos.
Finalizando, em São Paulo nesta semana está ocorrendo a primeira "Brazil Eco Fashion Week". Quem não tiver a oportunidade de ir ao evento tem muito material disponível em redes sociais para se informar mais.
Maria Júlia de Lara Battaglini e Morgana Broglio Paiva são graduandas em Engenharia Ambiental pela Unesp-Sorocaba e Sofia Coelho Moreira é Engenheira Ambiental e mestranda em Ciências Ambientais pela Unesp-Sorocaba



comments powered by Disqus