ARTIGOS

Oh! Yes, nós temos banana


Edgard Steffen 
 
Quando esteve no Brasil, o pediatra suíço Guido Fanconi teria dito não compreender como um país com abundância de bananas registrasse casos de subnutrição infantil. Não sei se a observação foi realmente proferida e qual o contexto em que fez o pronunciamento. Imagino que o professor Fanconi, um dos fundadores da Moderna Pediatria, originário de um país superorganizado onde tudo funciona como um relógio, não se lembrou de que estava num lugar onde leis e posturas, quando funcionam, funcionam como um relógio velho, inconfiável e coordenado por governos que se esquecem de dar corda.

No hemisfério norte, o rigoroso inverno leva à importação de frutas frescas para alimentação infantil. A banana-prata, por sua durabilidade, parece ter sido a preferida dos pediatras de lá. Seguramente o pediatra europeu não foi aprender na marchinha carnavalesca as qualidades nutritivas da fruta.

As várias espécies de Musa (nome genérico das bananas) não são alimento tão completo assim. Contém 1% de proteínas, 23% de carboidrato, 75% de água e oligoelementos (Vitaminas A, C, B6, Potássio, etc). Cada 100 gramas ingeridas geram entre 90 e 100 quilocalorias. Sozinhas não engordam nem conseguem fazer crescer.

Entro na internet. É um paraíso de fake-news e lendas urbanas. Nela, mais do que em outras fontes de informação e cultura, é preciso cuidado para separar o joio do trigo. Como sói acontecer, parecem infinitas as informações sobre alimentos em geral. Receitas mil para todos os gostos. Existe dieta da banana que promete milagres no emagrecimento.

Muitos sites comparam os componentes nutritivos das várias espécies de frutas. Encontro a revista Unesp-Ciência com o artigo "Yes, nós temos banana" com o subtítulo "mas, até quando?" Não o li, mas aposto que se refere ao Mal do Panamá, causado pelo fungo Fusarium oxysporum, que a FSP chama "inimigo número um das bananas"*. Na bananeira infectada pelo fungo forma-se espécie de gel que obstrui o sistema vascular e impede a nutrição do caule e das folhas. Por enquanto o problema fitossanitário está confinado na Ásia. Chegar por aqui é apenas questão de tempo.

Esta semana tive prova de que o subconsciente nos faz escorregar em verdadeiras cascas de banana. Correndo olhos nas capas das revistas expostas perto dos caixas da padaria Real, uma delas chamou-me a atenção. Exibia a figura amarela da fruta mais conhecida na face da terra. Automaticamente li "nós temos bananas", memória inconsciente da marchinha carnavalesca. Na verdade, o que estava escrito é "Yes, nós somos bananas". Não comprei nenhuma. Saí somente com o pão e a frase da Carta Capital.

O Brasil não é nem pode ser republiqueta. Seremos bananas se não valorizarmos nossos votos na próxima eleição. Tanto para o Planalto quanto para o Congresso, é preciso que se pondere cada postulante à eleição. Não devemos votar em branco nem anular nosso voto. Investigue se o candidato está alinhado com os valores que você defende. Fuja dos salvadores da pátria, dos vendilhões dos votos, dos que dizem não ser donos de nada e dos espertalhões que, eleitos, darão uma banana às suas convicções. Nosso Brasil não pode continuar embananado por aqueles que se vendem a preço superfaturado de bananas.

(*) FSP pág. B9 29/10/2017.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço -
edgard.steffen@gmail.com



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