LETRA VIVA

Caio (conto - final)


Nelson Fonseca Neto

Quando fui contratado, vi o tamanho do buffet e pensei: isso não vai durar muito tempo. Eu estava enganado. É só dar uma olhada na lista de reservas. Estamos lotados até o fim do ano que vem. Eu deveria estar contente. Significa que tenho emprego garantido nos próximos meses. É só não fazer besteira. O problema é que nunca estamos satisfeitos. Vira e mexe, a gente começa a pensar numas besteiras.

Como eu disse antes, gosto de ler. Minhas leituras nada têm a ver com algo acadêmico. Não tenho disciplina, não tenho paciência. Não consigo me imaginar acatando orientações de leituras, seguindo bibliografias, escrevendo teses empoladas. Leio muito, mais do que qualquer outra pessoa, mas pauto minha vida pelo autodidatismo e pelo princípio do prazer. Se o livro me aborrece, largo na hora. Não sei quem disse esta verdade: não é preciso comer o ovo inteiro para saber que ele está podre.

Se um dia eu pegasse uma folha de papel e fizesse nela duas colunas, uma com os prós e a outra com os contras do meu vício de leitura, tenho certeza de que a coluna dos prós seria bem maior: a gente conhece vários lugares sem sair de casa; a gente viaja no tempo; a gente vê melhor o mundo ao redor; a gente conhece personagens fascinantes; a gente escreve melhor; a gente não passa vergonha; o pessoal olha com mais respeito pra gente. Tudo muito bonito. O drama é que cada tópico, tomado isoladamente, é fraco, pouco convincente. Leio bem, falo bem, escrevo bem, mas vejo um monte de gente conquistando muito mais coisas. Nessas horas, eu me sinto um otário. Se eu abrisse mão da minha vida de caramujo e gastasse mais energia com bajulações, politicagens, vida acadêmica oficial; enfim, se eu fizesse essas coisas todas, eu certamente não estaria trabalhando num buffet infantil. E é nessas horas também que um olhar mais atento para a coluna dos contras mostra que ler pra burro pode ser um grande, um enorme problema: a gente fica mais inconformado; a gente não cai em conversa mole; a gente passa a desprezar a humanidade. E então a gente começa a pensar numas besteiras. É apenas uma questão de ligar os pontos.

Claro que o ambiente de um buffet infantil favorece o surgimento e o fortalecimento dessas besteiras. Não precisa ser um gênio para notar os horrores que pululam numa festa de criança. Primeiro que nós, os que trabalhamos no buffet, somos invisíveis. Até aí, nada de novo. O Fantástico, se não estou enganando, fez um programa em que a Camila Pitanga se disfarçava de faxineira num shopping center no Rio de Janeiro. Ninguém a reconheceu. Lógico que depois veio o apresentador comentando, com voz de choro, o que as pessoas tinham acabado de assistir. Ou seja: a idiotice de sempre. Mas não importa. Pelo menos, eles mostraram algo que acontece. Pensando melhor, ser invisível para os frequentadores de uma festa de criança não é tão ruim. Poderia ser pior. Nada mais imbecil do que rico com a consciência pesada. Aquela história furada de ser amigo do porteiro, de dizer que a empregada doméstica é quase da família, de cumprimentar o frentista do posto de gasolina com um toque espalhafatoso de mãos, de ficar fazendo gracinha com o garçom. Melhor ser invisível mesmo. O problema é que a invisibilidade não traz a cegueira nem a surdez. Não tem como não ver aquelas camisas com um cavalo gigante perto do peito. Também pode ser um jacaré. Não tem como não ouvir os comentários sábios a respeito de política. Não tem como não ouvir as dicas marotas de investimento. Não tem como não ouvir os relatos cafonas das viagens. Não tem como não ouvir os planos para a viagem do fim de ano. Isso que eu não cheguei às crianças. Melhor não comentar. Elas são vítimas. Com os pais que frequentam o buffet, dá para entender por que são arredias, grosseiras, mimadas, arrogantes. Mas não é culpa delas.

A gente soma essas peças todas e pensa num monte de besteiras. Conversar com o pessoal da cozinha para que os alimentos sejam preparados com ingredientes vencidos? Seria arriscado. Preciso do emprego. Sabotar a fiação? Eu não quero morrer num incêndio. Judiar das crianças? Eu já disse que elas não têm culpa. Afrouxar os parafusos de um dos brinquedos mais arriscados? Eu sou intelectual. Nem imagino como fazer uma coisa dessas. Enfim, a gente pensa numas besteiras, mas elas passam. Não sei se isso é bom ou ruim. Não sei o que vai acontecer quando elas não passarem.

(Fim do conto.)



comments powered by Disqus