ARTIGOS

Sobre críticas de filmes iranianos


Nildo Benedetti

Caro leitor, como hoje não haverá filme na Fundec, farei algumas observações de como uma parte dos críticos escreve sobre películas iranianas. Tomarei o exemplo de "A separação", já exibido na Fundec.

Umberto Eco, em "Os limites da interpretação", chamou de "uso do texto" à prática de alguém ir a um texto (ou a um filme, no caso) com uma ideia preconcebida que atende aos seus interesses e cria evidências por conta própria ou procura vestígios que comprovem a ideia, ignorando o que a contraria.

Sobre "A separação" foram escritas várias críticas em 2011 e 2012, algumas muito interessantes e úteis ao leitor. Outras, porém, continham a pesada carga ideológica que frequentemente acompanha o que se escreve e se fala sobre o Irã.

Duas críticas de dois jornais de grande circulação fizeram o "uso do texto" quando escreveram que "A separação" demonstra a condição da mulher na sociedade iraniana, porque o personagem Nader é acomodado e usa a doença do pai como subterfúgio para não sair do país com a mulher Simin. Quem viu o filme sente o drama do pobre Nader.

Há uma cena no filme em que o piano do casal é descido pelas escadas do prédio e impede a passagem da mulher; a cena foi interpretada como metáfora da condição feminina no Irã por um dos críticos; e como os carregadores pedem mais dinheiro pela tarefa, Simin lhes dá.

Mas, continua o crítico, se fosse Nader não daria e, embora seja uma cena que não exista no filme, ilustra as diferentes posições do homem e da mulher na sociedade iraniana. É evidente que criar cenas que não existem pode levar o crítico a extrair do filme o que bem entender e é um disparate considerar que o fato de uma mulher dar e o marido não dar dinheiro a um carregador de piano ilustre as diferenças psicossociais entre homens e mulheres de qualquer sociedade. E, pior, tudo isto sobre um filme em que o protagonista padece mais por causa das mulheres do que o contrário.

"A separação" aponta para a desigualdade econômica da sociedade iraniana ao comparar o casal da cuidadora e o marido com o casal de classe média Nader e Simin embora a Justiça atue de forma imparcial no processo contra Nader. Farhadi age como todos os grandes cineastas que criticam a sociedade local ou global e expõem as vicissitudes dos seres humanos que nela coexistem. Esse é o papel do artista, o de desestabilizar o indivíduo e fazê-lo ver aquilo que ele normalmente não vê. Farhadi teria motivos para se manifestar a respeito dos controles de liberdade impostos a homens e mulheres no Irã e apontar os defeitos das autoritárias instituições do seu país -- a começar por ter que enfrentar a forte e imprevisível censura e a repressão severa a cineastas hostis ao governo ou que supostamente transgridem os preceitos islâmicos. Mas não fez essa crítica em "A separação".

O prejuízo ao espectador com o "uso do texto" em "A separação" decorre da invenção de vestígios ou da procura ávida e inútil de provas da condição feminina. Pena que tais críticas ignorem o profundo estudo das relações humanas presente no filme e que faz dele uma verdadeira obra de arte.



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