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Trauma da consciência escravizada


Carlos Araújo

Prezado Zumbi, passados tantos séculos da sua morte e depois de terem criado o Dia Nacional da Consciência Negra no Brasil, as sensações são de angústia e constrangimento: o trauma do racismo permanece como ferida aberta e incurável na sociedade brasileira.
Essa reação é o preço da consciência brasileira por mais de três séculos de escravidão negra num país que tem a pretensão de achar que as leis resolvem problemas de identidade nacional, de formação cultural, de processo histórico.

Da mesma maneira como a Lei Áurea não resgatou os negros das senzalas, convertendo-se em formalidade que atendeu às conveniências dos governos em 1888, a legislação que classifica o racismo como crime no Brasil não é capaz de sacudir as consciências em prol da extinção do preconceito.

Os casos de crimes por racismo habitualmente se manifestam em declarações preconceituosas, comportamentos ofensivos, atitudes discriminatórias. Mas as fraturas vão muito além disso e atingem zonas nebulosas, traduzidas em condições indignas de vida. Desprezo, indiferença social, prisões seletivas, assassinatos nas periferias das grandes cidades. Nessas tragédias, os negros figuram como alvos em grandes escalas, como se a escravidão não tivesse acabado.

Veja bem, Zumbi, o Brasil não aprendeu as lições da história. Em contraste com os avanços da ciência e da tecnologia, num mundo marcado por maravilhas como o celular, a internet, a física quântica, o homem ainda considera o valor da igualdade como letra defunta. Desde a sua morte em 20 de novembro de 1695, o tempo não corrigiu as distorções humanas. A cor da pele continua a gerar celeuma como na época em que o País era colônia de Portugal. A realidade dá tapas na cara de quem acredita no mito da democracia racial.

Há racismo no futebol, na mesa do bar, na piada, na pichação do muro da esquina, no pensamento. O sociólogo Clóvis Moura um dia falou: "Nós temos uma verbalização democrática e um subconsciente racista." Nada mais duro de ser ouvido.

A lei que criminaliza o racismo no Brasil tem propósitos dignos de aplauso, mas não consegue eliminar o preconceito porque o problema está enraizado na alma, na tradição, na miséria de uma colonização estruturada na escravidão negra.

Não há sociedade que fique impune a uma catástrofe dessa dimensão. Nem aqui nem em qualquer parte do mundo. Aqui como em qualquer tempo e lugar, escravizar foi sempre um método de humilhação e afirmação de poder de grupos vitoriosos sobre classes derrotadas. Ao mesmo tempo, desde Roma e todos os impérios antigos, a escravidão, como fenômeno grotesco, também gerou revoltas, sede de liberdade, fome de justiça.

Se Roma conheceu Spartacus, o Brasil escravocrata se surpreendeu com Zumbi dos Palmares, com os quilombos, com fugas, revoltas de escravos. Num país acostumado a eliminar as figuras dos seus heróis populares, o Dia Nacional da Consciência Negra projeta luz sobre Zumbi dos Palmares, o personagem de um passado que jamais será esquecido. E a intolerância insiste em se fazer presente, atual, ameaçadora.

Não há força capaz de deter a indignação de indivíduos escravizados, por mais que as punições representem ameaça à vida. Foi essa dramaticidade que deu origem a Ganga Zumba, Zumbi dos Palmares, os quilombos e seus seguidores.

O seu exemplo, prezado Zumbi, ensinou que a escravidão é o pior dos castigos. O racismo, que lança o ódio de um homem sobre outro, é uma proposta de escravidão que deve ser combatida de todas as formas. E mesmo assim o combate, quixotesco, é travado no campo minado das utopias.

Prezado Zumbi, peço que perdoe a opção de me comunicar por carta. Eu poderia fazer um vídeo, usar e-mail, celular. A carta é o modelo mais em sintonia com o tema aqui descrito. Explico: toda modernidade perde o sentido diante de manifestações de ódio num mundo dominado pela intolerância.

De resto, não há conhecimento que resista à barbárie de uma sociedade racista. A impressão é de que, em termos de humanização sobre as diferenças, o Brasil não saiu do atraso colonial. É como estar preso ao passado.

Prezado Zumbi, talvez você precisasse se materializar para dar à luta contra o racismo uma aura de utopia num arcabouço de esperança e de liberdade.



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