ARTIGOS

Nada a esperar?


José Milton Castan Jr.

Finalmente seu Malaquias aderiu ao mundo digital. Recebi mensagem no celular, via aplicativo do meu amigo. A foto do perfil dele me pareceu um pouco desengonçada. Olhando melhor, talvez meio debochada. No entanto uma mudança expressiva, pois ele sempre rechaçou a ideia de tais modernidades.

Logo retribuí a mensagem, dando-lhe boas-vindas às redes sociais e parabenizando-o pela evolução, com algum gracejo barato. Fiquei visualizando o encaminhamento da mensagem, que inicialmente ficou com um tracinho check, depois dois e finalmente ficaram ambos tracinhos azuis, certeza que meu amigo havia recebido e visualizado minha mensagem. Aguardei o retorno dele..., mas não veio. Talvez estivesse ocupado para responder. Esperei mais um tanto e nada. Imaginei, possível, falta de habilidade para responder mensagens. Nada da resposta. Quis enviar mensagem só com pontos de interrogação... sei lá se ele entenderia. Por fim achei que ele se constrangeu, ou mesmo se aborreceu com meu gracejo. Aguardei mais um pouco a resposta dele, que realmente não veio. Isso me causou!

Seu Malaquias é o tipo de pessoa que tem seus próprios conceitos e princípios, e dificilmente deixa-se influenciar, quer sejam por esses modismos passageiros, quer seja por ideias rasas, aliás sua capacidade de aniquilá-las e colocá-las no devido lugar é impressionante. Já falei por aqui algumas vezes de como ele lança olhares devastadores para minhas observações, quando quer me fazer refletir melhor.

Foi aí que pensei que a falta de resposta dele tivesse algum significado, alguma mensagem subliminar. Não tive dúvidas, depois de um dia longo na clínica fui até a casa dele. Queria saber por que não respondeu minha mensagem.

-- Salve seu Malaca! -- eu o cumprimentei todo empolgado.

Ele apenas franziu as sobrancelhas e ficou me encarando. Péssimo começo. Explico, leitor amigo: apesar de nossa amizade seu Malaquias não é afeito a esses comportamentos latinos de informalidade, e o "seu Malaca" que eu jamais havia usado, não caiu bem. Tentei me redimir e o cumprimentei decentemente com um forte aperto de mãos, prontamente correspondido.


Prudentemente não quis de saída perguntar por qual motivo não havia respondido minha mensagem, e para tanto perguntei como estava, e outras amenidades. Seu Malaquias é um verdadeiro amigo, eu diria que é meu alter ego, e sendo assim sempre me aconselho com ele, e de repente percebi que já estava falando dos meus últimos perrengues e como andava meio borocoxô com tanta notícia ruim. De fato, falei, ando meio consumido com tanto "mais do mesmo", andei pensando em mudar pra praia, parar de trabalhar, deixar de escrever... Lembrei daquele filme "A estrada" num mundo futurista, pós-apocalíptico e em total ruína pai e filho vagam rumo ao mar sempre à procura de comida, fugindo de gangues que querem roubar o que puderem, e em determinado momento pai e filho encontram um bunker absolutamente seguro e que tem víveres para muito tempo. O danado é que não dá para viver assim isolados, e eles abandonam o bunker e seguem sua odisseia.
Eu falava tudo isso na esperança que seu Malaquias fizesse alguma observação, amenizasse minhas angústias, no entanto ele apenas me olhava.

Não me contive:

-- Poxa seu Malaquias eu aqui esperando uma palavra amiga!

E ele continuava me fitando, com um olhar desafiador.

-- Aliás -- falei com certa ira -- fiquei da mesma forma esperando que me respondesse a mensagem que te enviei no celular.

Então ele falou:

-- Este é seu problema: você espera demais.

E continuou:

-- Espera um mundo ideal, um amigo perfeito e uma resposta que demora a chegar. Caso não esperasse tanto, ou se nada esperasse, bem pouco sofreria ou nada sofreria.

-- Nada a esperar então? -- falei num tom desafiador e armando o troco. Mas ele antecipou-se e finalizou:

-- Do outro nada a esperar. Tudo a esperar de você!

Sem mais a esperar... me despedi!

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br



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