ARTIGOS

Sopa de neurônios e gastronomia


Diretor brasileiro começa a filmar história de um menino que usa culinária para unir família de pai muçulmano e mãe judia (Dos jornais)
 
Se você é fã de cinema deve ter assistido a muitos filmes em que o tema gastronomia conduz ou tem grande participação no enredo. Dos mais recentes, recomendo o alemão "Simplesmente Martha" (ganhou versão americana "Sem Reservas" com Catherine Zeta-Jones) e "Pegando Fogo"(com o excelente Omar Sy, o afrodescendente de "Intocáveis"). O meu preferido é a "A festa de Babette" -- Oscar de melhor filme estrangeiro em 1987. A empregada francesa gasta todo o dinheiro, ganho na loteria, no preparo de banquete para poucas pessoas, em homenagem ao pastor duma pequena comunidade dinamarquesa. Babete, para mim, é a celebração da vitória do bicho-homem contra a fome ancestral.
 
Ligue a TV e dê uma zapeada pelos canais, abertos ou a cabo. Encontrará cozinheiros e culinária para todos os gostos. Dos veganos e naturebas aos carnívoros juramentados. Desde aquela jovem simpaticíssima que simula se divertir na prática cozinha, até a vovozinha que se parece com a avó de todo mundo. Inglesa, exalando sensualidade na voz e nos movimentos, cozinha como se bailasse dança de acasalamento para atiçar machos; estes de olhos grudados, mais em suas carnes que no preparo das iguarias. Padeiro francês boa pinta faz mulheres suspirarem, mais pelo próprio, que pelos seus croissants; envelhecido e careteiro, exibe talento culinário tanto em lugares insólitos como em vetusto fogão a lenha. Em minha visão paleoantropológica de botequins (reafirmo, não os frequento), fogão a lenha é simbólico resquício do fogo das cavernas. Jovem inglês agitado promove shows de culinária pelo mundo afora e luta contra a introdução de comida industrializada nas escolas. Sem esquecer realyties culinários, com direito a taça e premiação como se fosse campeonato de futebol com ascenso, descenso e repescagem, sob vistas de árbitros que se alternam nos papéis bonzinho, perverso e técnico. Programas todos focados na audiência e faturamento, como você já deve ter percebido.
 
Gostoso assisti-los, com água na boca. Mais gostoso ainda, voltando à realidade, é encarar o pão nosso de cada dia consubstanciado num delicioso feijão-arroz-verdura-mistura -- com ou sem a birita e a goiabada cascão preparada por leonores e dagmares de qualquer etnia*.
 
Penso que o sucesso da audiência aos programas de gastronomia passa pela memória ancestral do bicho-homem. Expulso do Éden, passou muito medo e muita fome até dominar o cultivo e a domesticação da comida. Recém-descido da árvore, precisou correr muito para fugir dos predadores e disputar carniças com outros comensais. Adquiriu músculos mais ágeis e mais fortes do que as fêmeas que dominava. No recesso das cavernas, cuidando da prole, cultuando o fogo, estas acabaram cozinhando o que os machos traziam para o abrigo. Segundo a neurocientista brasileira Susana Herculano-Honzel, o cozimento dos alimentos facilitou digestão, absorção e forneceu calorias necessárias ao funcionamento e crescimento quantitativo dos neurônios e sinapses. Trabalhar com a massa cinzenta consome 25% da energia ingerida. Susana contou número menor de células (86 bilhões), mas a técnica de sopa de neurônios demonstrou que, percentualmente, eles representam 50% (e não apenas 10% como se pensava) da massa encefálica.
 
Até prova em contrário, nossas Evas ancestrais nas primevas cozinhas, por descuido, acidente ou intuição, proporcionaram a evolução neuropsíquica da espécie cozinhando ou assando as maçãs que recebiam de seus Adãos.
 
(*) João Bosco e Aldir Blanc O Rancho da Goiabada: Os bóias-frias quando tomam umas biritas/Espantando a tristeza/Sonham, com bife a cavalo, batata frita/E a sobremesa/é goiabada cascão, com muito queijo, depois café/cigarro e o beijo de uma mulata chamada/Leonor, ou Dagmar.
 
Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com. - Faceboock Dr. Steffen1917
 



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