ARTIGOS

Somos animais


Um cronista esportivo, ao comentar a situação dos principais times do Brasileirão, escreveu que o meu glorioso São Paulo não se apresenta tão bem como no passado, mas para ele não há nenhum cabeça-de-bagre são paulino. Pra quem não sabe, cabeça-de-bagre é jogador medíocre ou ruim mesmo. Fiquei feliz. Sem cabeças-de-bagre, meu time não só escapou do rebaixamento, como tem chances de subir ainda na tabela.
 
Dessa alegriazinha, nasceu-me uma reflexão rudimentar. Por pior que seja o jogador, é sempre uma pessoa. Por que marcá-lo, então, com simples peixe? Fácil a resposta. É na vida cotidiana que a gente apreende a realidade do mundo, antes de qualquer conhecimento científico, filosófico ou religioso, inclusive o que é o ser humano, quem sou eu, quem somos nós. Esse saber comum, fragmentário e descomprometido de qualquer rigor lógico, lança mão de ideias e imagens as mais divertidas, para explicitar o auto-conhecimento humano. Mostram isso inúmeras palavras, expressões, provérbios e frases cristalizadas da linguagem popular.
 
Como é sabido, o humano existe em duas dimensões: a animal e a racional. Pela animalidade nos assemelhamos a peixes, aves e quadrúpedes. Vem daí que um larápio rápido e sorrateiro como o gato é um gatuno e quem vive (a)voando nas nuvens é avoado e sujeito meio inteligente e meio jumento só pode ser intelijumento ou bestarel, misto de besta e bacharel. Dos animais também assumimos as marcas positivas, quando classificamos um trabalhador esforçado como um pé-de-boi, ou quando recomendamos: cada macaco no seu galho.
 
A força inquestionável da nossa animalidade aparece claramente ao falarmos de gente que briga como cão e gato, ou ainda na comparação maldosa de alguém como lesma, mula, anta ou carrapato. Por outro lado, ninguém se constrange com o sobrenome animalesco de Coelho, Bezerra, Carneiro, Aranha ou Leão. Tudo confirma que a relação homem/animal se fundamenta numa inegável filiação comum. Somos todos produtos da mesma mãe-natureza.
 
Se algo lamentável se insere nesse nosso parentesco, é que, embora sejamos o ser mais perfeito do universo, é também triste verdade que nos tornamos, muitas vezes, os bichos mais ferozes, em todos os tempos e lugares. Ensinam os entendidos que nenhum animal vertebrado destrói membros de sua própria espécie, habitualmente. Já os humanos, além de trocarem as farpas mortais da mentira e da calúnia, como víboras, não se envergonham também de manchar a história com os casos mais impulsivos de sua crueldade bestial, em guerras, genocídios, torturas, estupros, ações terroristas e regime escravo. E o que pensar dos ratos e abutres que, por aqui, raptaram milhões da Petrobrás?
 
Felizmente, para sermos mais humanos, a gente pode aprender muita coisa com os animais. Ganharemos muito aprendizado, se soubermos captar suas lições. Nossos primeiros mestres-escolas poderiam ser simples insetos, como as formigas, símbolo bíblico do trabalho: "vai ter com as formigas, preguiçoso, observa o seu proceder, torna-te sábio... até quando, ó preguiçoso, ficarás deitado?" (Provérbios 6, 6). E ganharemos o céu, se observarmos os altos voos de uma águia a nos sugerir que sobrevoemos as baixezas da vida, da mesma forma que os olhos de uma coruja a devassar a noite podem nos animar a abrir caminhos no mais escuro dos dias.
 
Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br
 



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