LETRA VIVA

Caio (conto - primeira parte)


Nelson Fonseca Neto

O mundo está emperrado porque as pessoas ficam presas na superfície das coisas. Eu sei muito bem do que estou falando. Não aprendi isso nos livros, apesar de ler bastante. Aprendi isso na prática.

As pessoas olham para mim. O que elas encontram? Um piercing no nariz, um alargador de orelha, um monte de tatuagens nos braços. Tem também este meu jeito espevitado. Não tenho culpa de ser magricela, de fazer exercícios regularmente, de comer bem, de dormir como uma pedra. Tem também o meu trabalho: monitor de buffet infantil.

As pessoas olham para mim, elas observam o meu trabalho, ficam atentas aos meus movimentos no meio da criançada. As pessoas processam essas informações todas e chegam ao veredito: molecão meio bobo. Mais: trabalha para ter um dinheirinho para gastar nas baladas.

Se bem que eu colaboro. Eu visto a carapuça. Faço questão de parecer meio bobo. (Eu ia dizer "leviano", mas acho que "bobo" é mais certeiro.) Acabou virando uma espécie de jogo. Seria uma terapia heterodoxa. Li, não lembro onde, que é saudável recuar um passo e observar o espetáculo da vida. Se a gente consegue fazer isso, não leva a vida tão a sério. Rir de si mesmo, dizem, é sinal de sanidade mental. Não sou a pessoa mais autorizada para confirmar se isso é certo. Não importa. Só sei que tem dado certo comigo. Não posso reclamar da vida.

No buffet infantil onde eu trabalho tudo custa uma fortuna. Ele ocupa um prédio imenso numa das regiões mais valorizadas da cidade. Sei que o dono gastou uma grana pesada. Tem brinquedo de tudo quanto é tipo. Tem videogames de última geração e fliperamas retrôs. Tem uma pistinha de kart. Tem uma discoteca minúscula, muito bem abastecida: luzes coloridas, globos, gelo seco, som potente. Tem um salão onde a criançada fica duelando com armas que emitem laser. O pessoal da cozinha prepara bolos gigantescos. É boa a variedade de salgadinhos e docinhos. Resumindo: o preço é caro, bem caro, mas o serviço não deixa a desejar.

Quer dizer, sempre tem alguém que reclama. Não é fácil ter clientes com grana. Sempre tem alguém que diz que os salgadinhos não estão muito quentes, ou que os refrigerantes não estão gelados, ou que não tem determinada marca de cerveja, ou que o Juquinha torceu o tornozelo porque um dos monitores estava distraído, mexendo no celular, ou que uma das monitoras foi grossa com a Mariazinha, ou que a música está muito alta, ou que não dá para ouvir direito a música, ou que o garçom fez cara feia quando um dos convidados adultos fez uma reclamação, ou que tem um mendigo aporrinhando perto da porta de entrada. Enfim, sempre tem rolo, mas nada que chegue a atrapalhar a reputação do buffet.

É até engraçado. Temos uma página no Facebook. O dono contratou alguém para fazer as postagens. Não tem mais essa história de folhetos ou de anúncio nos jornais. Faz muito tempo que não tem propaganda no rádio. Tudo rola nas redes sociais. As postagens da nossa página no Facebook são atualizadas diariamente. As fotos da mesa de doces chamam a atenção. Tem também uns vídeos com os brinquedos de maior destaque: a tirolesa, o teleférico, a pistinha de kart. Muita gente comenta. Eu até levei um susto no início. Nunca imaginei que tanta gente era doida por buffet infantil. As perguntas são de tudo que é tipo. Quanto custa a festa. Se dá para fazer festas mais modestas. Se dá para levar bolo de fora. Se dá para levar salgadinho de fora. Se tem manobrista. Se tem equipe para filmar e fotografar a festa. Se dá para levar trezentas pessoas, entre crianças e adultos.

Quando fui contratado, vi o tamanho do buffet e pensei: isso não vai durar muito tempo. Eu estava enganado. É só dar uma olhada na lista de reservas. Estamos lotados até o fim do ano que vem. Eu deveria estar contente. Significa que tenho emprego garantido nos próximos meses. É só não fazer besteira. O problema é que nunca estamos satisfeitos. Vira e mexe, a gente começa a pensar numas besteiras.
(Fim da primeira parte. Continua na semana que vem.)



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