ARTIGOS

Psicologia das massas em 'A caça' (parte 2 de 2)


Nildo Benedetti

O filósofo e historiador francês René Girard em A violência e o sagrado defende a noção de que todas as formas de violência podem ser descritas em termos de sacrifício e que a sociedade procura desviar para uma vítima expiatória a violência que poderia golpear seus próprios membros. A escolha de Lucas como vítima expiatória se evidencia no prazer que todos sentem em sacrificá-lo. Theo, o pai de Klara, amigo íntimo de Lucas, diz que percebe quando este mente sobre seus sentimentos pessoais afetivos, mas não nota -- porque não quer notar -- quando Klara mente sobre o assédio, embora o tique desta seja muito evidente. E quando Klara em várias ocasiões nega o ato de pedofilia de Lucas, ninguém lhe presta atenção. A mãe da menina, grande amiga do professor, dá uma explicação freudiana da negativa de Klara: a filha esqueceu (recalcou) um fato traumático. A diretora da creche sabe que crianças fantasiam e que Klara tem muita imaginação, mas aceita como verdadeiro o resultado da inquirição insidiosa de Ole, a despeito das negativas iniciais de Klara. No supermercado Lucas é fisicamente agredido por um balconista e na igreja, na véspera de Natal, festa maior da cristandade, uma mulher se levanta quando ele se senta. Os indivíduos ficam cegos para a inocência de Lucas porque têm o desejo de que ele seja culpado para poder massacrá-lo.

Um ano se passa e a inocência de Lucas foi provada graças à ajuda de um amigo. O desmonte da culpa do professor racionalmente deveria fazer cessar a violência contra ele. Mas, no mesmo dia em que seu filho Marcus é iniciado na caça a animais, ocorre a tentativa de matar Lucas. É uma indicação de que o ciclo de violência provocada por um suposto ato de pedofilia é revitalizado para animais e para Lucas, identificando Lucas como o animal a ser caçado. René Girard defende a ideia de que o ser humano sempre consegue encontrar boas razões para justificar a violência e, quando esta não é saciada, procura e sempre encontra uma vítima alternativa; assim é que a criatura que excitava sua fúria é substituída por outra, que não possui qualquer característica como a que provocava a ira do violento, a não ser o fato de ser vulnerável e de estar ao seu alcance. Não encontrando uma vítima alternativa para o Lucas culpado, alguém (que pode representar o sentimento de muitos), usa o próprio Lucas para descarregar a agressividade reprimida, encontrando uma "razão" consciente de que ele é culpado e ludibriou a justiça. A violência que foi forçada a cessar sobre o suposto culpado Lucas é agora descarregada sobre o inocente Lucas. Por isto tentam "sacrificá-lo" como a um animal.

A pequena comunidade em que o filme transcorre parece uma grande família, mas a acusação de uma criança de apenas cinco anos desmonta, em poucos dias, toda aquela harmonia social. O fato faz vir à mente o pensamento do historiador Will Durant: para passar da barbárie à civilização são necessários séculos, para passar da civilização à barbárie basta um dia.



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