OUTRO OLHAR

A culpa é do hífen


Carlos Araújo

Tem hífen ou não tem hífen? Será? E se tiver o sinal? E se não tiver? E agora, quem poderá me ajudar?

Essa tensão é frequente para muita gente e constante para quem tem a língua portuguesa como ferramenta de trabalho. Há sempre um manual, uma apostila por perto, um Google com explicações sobre a utilização do hífen, acrescidas de listas de palavras. De repente, a palavra com que você se debate não está em nenhuma lista e não se encaixa nas regras à disposição. E então, o que fazer?

Você não pode escrever por achismo e usar o hífen sem ter certeza de nada. Um único erro desse nível pode comprometer todo um texto. Então, você navega no Google. A essa altura o hífen se transformou em um nó que você precisa desatar.

E mesmo assim, para o seu azar, você não encontra a resposta que precisa. Se tem sorte e localiza a palavra, nem assim pode ter a dúvida resolvida: a incerteza pode continuar a existir.

Você recorre a um colega de trabalho. Habitualmente essa figura tem um perfil de manual de redação em corpo e alma. O colega pensa uns segundos, confirmando a dificuldade de análise, e dá o veredito: "É com hífen."

Só agora você se sente seguro. No fundo, uma ponta de dúvida ainda persiste, mas agora você tem a quem transferir (ou com quem compartilhar) um eventual erro no texto. Nessa hora há espaço até para comparar:

-- Se o hífen é problema para nós, brasileiros, imagine o grau de dificuldade para um estrangeiro que queira aprender a língua portuguesa.
No Google, a função do hífen provoca mais complexidade. Uma das dicas descreve: " O hífen é o sinal de pontuação que tem a finalidade de unir vocábulos, formando um todo semântico. Comumente, o emprego ou não do referido sinal desperta dúvidas." Redundância, pois você já está careca de saber disso.

Imagine que uma das regras diz que não se usa o hífen quando a última letra do prefixo for vogal diferente da vogal com que se inicia a palavra agregada: autoestima, semiestruturado, semianalfabeto.

Entre as situações para o uso do hífen, citam-se os "elementos que integram um todo semântico: pobre-diabo, papel-pardo, mata-mata".

Impossível guardar tudo isso de memória. Num momento em que as regras podem ser consultadas, quem sabe você se saia bem. Mas, e se estiver numa prova do Enem ou teste de seleção para emprego em que a única possibilidade de consulta é a mente?

E nesse instante você tenta lembrar as recomendações sobre como usar o hífen em situações como as de prefixo terminado em vogal + palavra agregada iniciada por consoante diferente de "r" e "s". E de tanto forçar a mente, você acaba confundindo essa regra com a do prefixo terminado em vogal com palavra agregada iniciada por "r" ou "s". Tipo antirrepublicano, antessala, biossistema. Isto é, há situações em que o uso do hífen é excluído e a palavra fica estranha.

E quando a saia justa sem hífen significa um vestuário feminino, enquanto a saia-justa traduz um momento de tensão, o que fazer? Nesse exemplo, o sinal trava o autor e o leva ao nocaute.

De repente, você compara o hífen a um problema psicológico, filosófico, antropológico, cultural, tudo isso e mais um pouco. E, por vingança, transfere todas as responsabilidades do mundo para esse sinal que você desejaria que fosse extinto. Você acha isso possível. Numa língua que aboliu o trema, quem sabe um dia façam uma reforma ortográfica para eliminar o hífen. Primo do underline ( _ ), sobrinho do travessão (- ), nenhum outro sinal tem tanto poder.

Por tabela, você transfere ao hífen a culpa pelos últimos acontecimentos na política brasileira. Por que a culpa pelos crimes políticos não pode ser do hífen, se há quem ache culpa até nas estrelas?

Agradecimento

Agradeço as menções do médico e cronista Edgard Steffen em sua crônica de 28/10/2017 (De Nobel e IgNobel), quando referiu-se a mim e a uma crônica minha (Goteira na cabeça) com generosas palavras de leitor e amigo. Também estou entre os seus muitos fãs e leitores.



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