OUTRO OLHAR

Revoluções frustradas

Carlos Araújo

Entre as principais ilusões humanas, ocupa especial destaque acreditar em alguma coisa, ter uma referência, um farol, uma luz como sentido e direção. Durante décadas, a Revolução Russa, que neste mês completa 100 anos, cumpriu esse papel para muitas gerações. E o alcance foi tão vasto e abrangente que inspirou outras revoluções pelo mundo afora.

Os líderes Vladimir Lênin e Leão Trotsky fundaram, respectivamente, doutrinas a partir dos seus nomes (leninismo e trotskysmo), que se firmaram como correntes de pensamento com o poder de dar respostas para questões de liberdade, justiça, rebeldia. Deixaram livros fundamentais. O estado e a revolução e Que fazer?, de Lênin, foram livros devorados por um público ávido por interpretar o mundo à luz do marxismo.

Sobrevieram outras revoluções (na China, na Nicarágua, em Cuba), surgiram outros líderes (Mao, Fidel, Guevara), e com eles as revoluções saíram dos manuais teóricos e adquiriram rostos com barbas, calvícies, punhos cerrados.

Todas as revoluções nasciam de perspectivas humanistas, de lutas contra estados opressores, de movimentos de natureza popular; e todas se perdiam em armadilhas próprias, edificavam novas estruturas de poder tão duras quanto as anteriores e habitualmente terminavam em massacres.

As revoluções encantavam quem buscava abrigos humanistas e as adesões eram marcadas por grandes expectativas. E, quando a confiança se quebrava, tudo se convertia em amargura típica de pavilhão de desilusões.

Como acontece nas relações socais, o poder de atração das utopias revolucionárias seduziu intelectuais do calibre de Jorge Amado, Jean-Paul Sartre, José Saramago. Amado até ganhou um prêmio Stalin em 1951. E Maiakovsky foi o poeta da Revolução na Rússia.

Outros autores, visionários, rejeitaram as revoluções, mesmo com o desgaste de suas imagens. Albert Camus, por exemplo, viu nos ruídos das ruas o absurdo que identificou na existência humana e isso lhe valeu rótulos que o classificaram como traidor e direitista. À margem dos debates ideológicos, Gabriel García Márquez foi mais criativo ao inventar um personagem que participou de 36 revoluções e perdeu todas. Era como um presságio.

Todas as revoluções fracassaram, morreram e foram enterradas. E com elas desapareceram o que havia de mais estimulante nas ideologias: o poder de mobilizar os povos por questões como liberdade, justiça, união entre os homens. Essas ideias desapareceram das discussões. Outros assuntos entraram em cena. Fazer revolução no território de ninguém das redes socias roubou todas as atenções.

Como em todo o mundo, o Brasil também recebeu influências da Revolução Russa. Da Coluna Prestes à Intentona Comunista e à Guerilha do Araguaia, a movimentação foi intensa. E surgiram os líderes, de Luís Carlos Prestes a João Amazonas, de Giocondo Dias a Mário Alves. Todos derrotados, todos desamparados em suas convicções.

Se a derrota das ilusões foi inevitável, o que ocupou o espaço vazio não atendeu às expectativas de novas gerações. Ideias de liberdade e justiça foram substituídas por novas revoluções, com a diferença que elas perderam as bases humanistas e se firmaram como movimentos de tecnologia, avanços científicos, bandeiras ecológicas.

Atualmente o homem se mobiliza mais pelo passeio de um robô em Marte do que com o naufrágio de imigrantes que fogem de lugares dominados pela guerra. Revoluções tecnológicas produzem maravilhas e transformam sociedades, mas ao mesmo tempo são incapazes de melhorar a vida nos guetos, nas favelas, nas masmorras do mundo. E isso acontece porque a utilização dos benefícios científicos é seletiva: tudo é caro demais, tudo é destinado a poucos.

Passados 100 anos, valores bárbaros continuam a unificar as sociedades. Traduzem-se em violência, desconfiança, cinismo. Lugares sem guerra declarada vivem situações de combate com disputas entre facções, milícias, narcotráfico. Não se embarca num avião sem passar por rigorosos dispositivos de segurança. O medo, a ameaça, o perigo, estão em toda parte.

Cem anos depois, as revoluções científicas melhoraram a condição humana, mas não conseguiram dar conta dos sonhos fundamentais de paz, justiça, liberdade de ir e vir sem riscos. Nem a internet é travessia livre de ameaças. A globalização desse admirável mundo novo também intui grandes derrotas. E o Brasil, ai de nós, faz parte desse modelo.



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