OUTRO OLHAR

Monólogo na sociedade do abismo


Ruídos, fraturas, perdas, dores, aflições, explosões, cheiros, gritos, pulsações, carnes, propinas, medos, exílios, desespero, agonia, conflitos, traumas.

Procuro a palavra que seja capaz de traduzir as perdições desta segunda década do século 21. O que mais choca é o contraste entre o avanço da tecnologia e a regressão à barbárie, entre a humanidade e o caos, entre o sublime e o grotesco da condição humana.


Os reflexos são sentidos em todas as atividades humanas. Nunca a falta de sentido das coisas foi tão ameaçadora. Jamais fenômenos como desesperança e incerteza estiveram tão sintonizados.


Em contrapartida, outras palavras jorram como num fluxo de consciência: fé, esperança, otimismo, solidariedade, amor, confiança, beleza, prazer, sonho. Palavras ditas, escritas, pensadas, como se tivessem a função de equilibrar a oposição das expressões negativas.


Enquanto há musicalidade nas palavras que evocam ilusões, a aspereza domina os signos do abismo. As duas veredas se projetam como labirintos num mundo frio, distante. Qual delas é a mais viável para a jornada da vida?


O grupo de palavras bonitas é o caminho mais atraente, pois faz bem aos sentidos. Ao contrário, os adjetivos e substantivos cruéis emolduram o cotidiano imponderável.


Para complicar as coisas, tudo é linguagem e o que marca as diferenças são as ideologias em posição de duelo. Palavras são como ferramentas: dependendo de quem faz uso delas, o resultado pode ser a salvação ou a perdição de milhões de pessoas.


Quantas vezes a palavra propina tem sido repetida nos últimos tempos. E o medo, a dor, a morte, fazem-se presentes com uma intensidade nunca vista. Nesse quadro, o autoengano impulsiona a glória, o sucesso, a felicidade, como se a força da linguagem pudesse substituir os valores mais caros aos estados de espírito.


A sociedade é múltipla, disforme, injusta. De um lado fervilham a fama, o poder, o dinheiro, com todas as proezas ligadas a esses signos, desde as vidas de luxo à vocação predadora das grandes corporações. No outro extremo abundam a fome, a doença, a guerra, com todas as suas misérias, de crianças abandonadas ao caos de pacientes que não conseguem tratamento nas unidades públicas de saúde.


Quem faz uso das palavras também desenha mundos inconsistentes: um juiz interpreta a lei segundo sua ideologia, um político faz promessas enganosas, um jovem negro é assassinado no beco de uma favela, alunos se jogam no chão da sala de aula em busca de proteção contra balas perdidas, motoristas se agacham atrás de carros na avenida aguardando o fim de mais um tiroteio.


E tudo é linguagem, tudo quer dizer alguma coisa, tudo se converte em perguntas sem respostas. O que acontece com o nosso mundo? Os discursos estão esgotados. De que adianta alguém falar que tal caso de corrupção vai ser investigado, se quem faz essa promessa também é suspeito de integrar a quadrilha?


Talvez seja a hora de desconstruir todos os valores, todos os princípios, todos os conceitos. Nenhuma filosofia é possível num mundo sem referências. Nenhuma poesia é permitida. Nenhuma arte faz sentido. Nenhuma justiça dá conta do intocável.


Agora, não é mais a denominação exata que eu procuro. Palavras deveriam dizer verdades, mas também são usadas para as mentiras. E são inconfiáveis, traiçoeiras, levam ao buraco.


A essa altura, eu procuro o sentido de tudo o que acontece e altera destinos. Talvez o jeito seja aceitar a vida como ela é. Não me indignar mais com nada. Render-me ao absurdo.


Lá se vão os anos em que as paixões ideológicas despertavam instintos coletivos, mobilizavam revoluções, encantavam almas e mentes. Eram os tempos das utopias. A história abriu ondas conservadoras que destruíram células de inteligência, esmagaram a consciência crítica, apropriaram-se de todo o poder. O mundo sombrio de George Orwell, com os seres submetidos a comandos programados, é uma realidade visceral.


Talvez não exista palavra para traduzir essa tristeza e solidão. E provavelmente as coisas são assim porque toda comunicação está extinta, toda poesia foi silenciada, todas as cores estão desbotadas. Quem pode, pega o caminho do aeroporto. Quem não pode, respira e tenta sobreviver mais um dia.



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