CULTURA

Projeto com presos digitaliza acervo


Mais de 4 mil imagens que ajudam a contar a história de Sorocaba entre as décadas de 1950 e 1970 já foram digitalizadas por presos da Penitenciária Dr. Danilo Pinheiro, no Minerão. A ação voluntária dos reeducandos é resultado de uma parceria firmada há um ano entre a unidade prisional e o Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS) a fim de salvaguardar o rico acervo fotográfico deixado pelo fotógrafo, jornalista e historiador Porphirio Rogich Vieira (1929-2001).
 
Os negativos em 35 milímetros, com milhares de fotogramas originais, foram doados em vida por Rogich Vieira -- um dos fundadores do IHGGS -- e registram três décadas de eventos sociais, como casamentos e bailes de formaturas e desfiles cívicos.
 
De acordo com o professor Adilson Cezar, presidente do Instituto Histórico, a parceria de trabalho voluntário da penitenciária veio em boa hora já que o material corria risco de deterioração pela ação do tempo. "Além disso, se a gente fosse contratar uma empresa especializada, teria um custo muito alto, seria inviável porque o Instituto não tem verba", diz. Segundo Cezar, a proposta de envolver internos do sistema prisional surgiu depois que a instituição foi contemplada com doação de um scanner, equipamento que digitaliza as fotos, mas não dispunha de funcionários para realizar a mão-de-obra.
 
A parceria ganhou apoio do diretor da penitenciária, Edézio José da Silva Júnior, que autorizou sentenciados voluntários, inscritos no programa de remissão de pena, a realizarem a digitalização das imagens na própria unidade. "Para a gente essa parceria é de suma importância porque resgata a história da cidade bem como incentiva os presos que estão trabalhando e se sentem valorizados, contribuindo com o resgate da história da cidade", afirma. Atualmente, dois presos se dedicam na digialização do acervo, mas segundo Silva Júnior, existe a perspectiva de envolver mais voluntários, que são treinados a higienizar os filmes, a digitalização no scaner e, em seguida, a correção de cores. "Agora estamos passando por reforma e futuramente teremos uma sala que está sendo adaptada especialmente para isso", diz.
 
De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, os dois reeducandos participantes, condenados a mais de 10 anos de prisão, têm bom comportamento e trabalham na penitenciária há cerca de dois anos. "É muito satisfatório fazer esse trabalho voluntário. Fico olhando as fotos e imaginando quem foram aquelas pessoas", comenta J.C.S.C, de 38 anos. "Hoje me sinto parte de um lado bom da vida de muita gente. Farei o máximo que puder para recuperar essas fotos e quero muito um dia ter a oportunidade de conhecer o Instituto", comenta D.P.S, de 45 anos.
 
De acordo com o presidente do Instituto Histórico, professor Adilson Cezar, até agora foram digitalizadas cerca de 4.200 fotos, mas o processo deverá continuar por muito tempo, já que a estimativa é de que o acervo de Rogich Vieira ultrapasse 10 mil fotogramas. Apesar do longo caminho que os detentos ainda terão pela frente, o presidente do Instituto afirma que o volume de fotografias recuperadas até agora já permite que o Instituto dê início à segunda fase: a identificação dos lugares, datas e personagens registrados nas fotos. Para essa etapa, Adilson Cezar afirma que dentro de alguns meses, o IHGGS realizará encontros abertos à população, para que os interessados participem da catalogação do material. "Nossa ideia é fazer um café da tarde e convidar as pessoas, principalmente os sorocabanos mais velhos, para que nos ajudem a identificar o máximo de fotos. Queremos fazer um trabalho colaborativo", conclui.


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