ARTIGOS

A astronomia e seus clubes


Sergio Dias Campos
com Rodrigo Felipe Raffa


A ciência brasileira está muito mal das pernas e dos bolsos. Os investimentos caem ano após ano a níveis nunca vistos. No âmbito federal, o orçamento de investimento do MCTIC está limitado em 44% do que estabelece a lei orçamentária, resultando em R$ 3,2 bilhões para 2017. Os estados, por outro lado, por meio de suas fundações de amparo à pesquisa, investiram cerca de R$ 2,5 bilhões em 2016, com expectativa de atingir R$ 2,7 bilhões neste ano, que talvez se frustre pela queda na arrecadação.


Com os investimentos em ciência despencando, o que fazer para não perder os cérebros que por aqui estão trabalhando? Ou pior, como atrair novos cérebros para a ciência num país onde falta quase tudo? Não parece ser uma tarefa simples, mas exemplos levam a crer que nem tudo está perdido quando o assunto é atrair jovens para as ciências. O exemplo que nos chama a atenção pela simplicidade é a criação de clubes de ciências. Esses clubes tendem a despertar o gosto por essa área em jovens e crianças, até mesmo em fase pré-escolar. Não bastasse isso, acabam por auxiliar no aprendizado fora da sala de aula por tornar lúdicos temas muitas vezes áridos.


Dos clubes de ciências, talvez o exemplo mais interessante e multidisciplinar sejam os clubes de astronomia. Há no país mais de 200 associações e clubes deste tipo. Para criá-los não são necessários investimentos elevados e como o interesse pelo céu é inerente ao ser humano, isso facilita atrair público para os eventos que promovem. Olhar os astros e entender sua dança no céu e por que são como são necessita de uma ampla gama de conhecimentos interconectados. Física, química, matemática, geografia e até mesmo história entram fácil, fácil no enredo de uma conversa informal ou não sobre o universo.


Um exemplo deste tipo na nossa região é o Clube de Astronomia Centauri de Itapetininga que promove palestras, encontros e atividades científicas-culturais em escolas, universidades e locais públicos como o Centro Cultural e a Biblioteca Municipal de Itapetininga. Capitaneado por professores, estudantes universitários e astrônomos amadores, esse Clube acaba sendo muitas vezes a porta de entrada de alunos do ciclo básico da educação para o fantástico universo da astronomia. As atividades promovidas são previamente discutidas e planejadas entre os membros do Clube, professores e coordenadores da escola solicitante. Isto deve ser feito para que o conteúdo da palestra ou tema da atividade seja condizente com o projeto político-pedagógico da escola, podendo promover interação entre diversas disciplinas ao mesmo tempo ou focando em alguma área específica para melhor aprofundamento do conteúdo. Complementando as atividades teóricas das palestras, são promovidas também atividades de observação do céu com telescópios, binóculos e óculos com filtro solar. Há também uma sequência de discussão sobre os equipamentos utilizados e sobre o fenômeno observado. Um dos eventos mais marcantes do Clube foi a observação neste ano do eclipse parcial do Sol visível em nossa região. O encontro aconteceu em uma escola privada que permitiu acesso livre aos interessados.


Muitas vezes o local para reuniões e eventos é o mais crítico para se criar um clube deste tipo. Nesse sentido, as escolas podem atuar como polos, permitindo que seus alunos montem e administrem, juntamente com professores e interessados, um clube de astronomia ou ciências, que pode realizar observações e cursos na própria escola ou onde for solicitado. Em geral, os equipamentos estão disponíveis na própria escola, mas muitas vezes estão subutilizados.


Poucas coisas são mais gratificantes do que despertar o gosto pelo saber em uma criança, adolescente ou adulto. Procure um clube de astronomia e veja o que os astros revelam sobre o nosso passado.


Sergio Dias Campos é professor da UFSCar Sorocaba - sergiodc@ufscar.br
Rodrigo Felipe Raffa é graduando em licenciatura em Física da UFSCar Sorocaba e astrônomo amador e um dos fundadores do Clube de Astronomia Centauri de Itapetininga.



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