BRASIL

Delação premiada de Lúcio Funaro contradiz versão do amigo de Presidente Michel Temer


As declarações prestadas pelo corretor de valores Lúcio Bolonha Funaro em seu acordo de delação premiada contradizem a versão apresentada à Procuradoria-Geral da República pelo empresário José Yunes, amigo e ex-assessor especial do presidente Michel Temer, e divergem de trecho das delações de executivos da Odebrecht sobre o destino do dinheiro.

Funaro, hoje detido no presídio da Papuda, disse à Polícia Federal e à PGR que esteve em 2014 no escritório de Yunes, em São Paulo, para pegar R$ 1 milhão como parte de um acerto que envolveria pagamentos de R$ 10 milhões da empreiteira Odebrecht para campanhas do PMDB naquele ano.

O pedido de ajuda financeira feito ao comando da Odebrecht, do qual Funaro não participou nem presenciou, teria partido do então vice-presidente Temer e de outros peemedebistas. Funaro disse não ter falado sobre dinheiro com Temer e que seu canal de interlocução com o peemedebista era o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Funaro disse, segundo relatório da PF, que retirou o dinheiro no escritório de Yunes e mandou entregá-lo na sede do PMDB em Salvador (BA), em resposta, segundo ele, a um pedido feito por telefone pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), hoje preso por vinculação a R$ 51 milhões encontrados num imóvel na Bahia.

No depoimento prestado à PGR em fevereiro, Yunes, entretanto, disse que houve um movimento no sentido contrário, que ele recebeu um "pacote" de Funaro, pessoalmente, em seu escritório político em São Paulo, e a pedido não de Geddel, mas do ministro Eliseu Padilha (Casa Civil).

Yunes afirmou que não teve curiosidade de saber o conteúdo do pacote, que foi entregue depois, pela sua secretária, a uma pessoa que disse se chamar também "Lúcio". Yunes disse não ter visto essa pessoa.

A versão contada por Funaro não chega a contradizer diretamente dois delatores da construtora Odebrecht que haviam revelado o episódio pela primeira vez meses atrás, mas diverge sobre o beneficiário do pagamento e dos registros de uma planilha entregue pela empreiteira.
Os executivos da Odebrecht disseram ter mandado entregar R$ 1 milhão no escritório de Yunes, porém associaram o valor a Padilha e Moreira Franco, hoje secretário-geral da Presidência, além do próprio Temer, e não a Geddel, que não foi citado em suas delações como associado a esse episódio.

Tanto assim que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu abertura de inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal), em abril passado, para averiguar não Geddel, mas Padilha e Moreira. Temer não foi incluído no inquérito porque o suposto ato ilícito teria ocorrido antes de sua posse na Presidência, em 2016.

Jantar


Segundo os delatores da Odebrecht, o valor de R$ 1 milhão era parte do acerto maior de R$ 10 milhões feito durante jantar ocorrido em maio de 2014 no Palácio do Jaburu, em Brasília, na presença de Temer, Padilha, Marcelo Odebrecht, dono da empreiteira, e Cláudio Melo Filho, diretor de relações institucionais da construtora. Geddel também não foi citado pelos delatores como participante do jantar.

O valor de R$ 10 milhões foi dividido em dois, segundo os delatores: R$ 6 milhões seriam canalizados para a campanha de Paulo Skaf (PMDB-SP) ao governo de São Paulo e os R$ 4 milhões restantes ficariam sob controle de Eliseu Padilha, "responsável por receber e alocar internamente os recursos".

Melo Filho disse que o valor destinado a Padilha foi "operacionalizado" por outro executivo da Odebrecht, José de Carvalho Filho, que também se tornou delator na Lava Jato.

Em seu depoimento, Carvalho Filho confirmou que a planilha de controle interno da Odebrecht com a lista dos pagamento dos subornos trazia o codinome "Angorá" relacionado ao pagamento de R$ 1 milhão para "o sr. Yunes". O ministro Moreira Franco é conhecido, em Brasília, como "Gato angorá", pela cor branca dos cabelos.

Nos controles da Odebrecht, Geddel era tratado por outro codinome, "Babel". Uma relação de ligações telefônicas entregue pelo delator Carvalho Filho mostra chamadas trocadas por ele com Padilha, e não com Geddel.

Na petição em que pediu a abertura do inquérito para averiguar o episódio, Janot afirmou que o valor de R$ 4 milhões foi "solicitado por Moreira Franco, mas recebido por Eliseu Padilha".


Proximidade


Nas informações encaminhadas à PGR para seu acordo de colaboração premiada, Claudio Melo Filho disse que Geddel lhe procurava pessoalmente por recursos para sua campanha ao governo da Bahia, mas não citou o episódio que envolveu Yunes como ligado ao baiano.
Melo Filho afirmou, em texto entregue à PGR, que tinha grande proximidade com Geddel: "Minha relação com Geddel Vieira Lima vem da amizade dele com meu pai. Em 2004, após a doença de meu pai, nossas relações se aproximaram mais, quando assumi em Brasília a função de diretor de Relações Institucionais [da Odebrecht]. Como narrarei abaixo, desde o ano de 2006 até o ano de 2014 participei dos pagamentos que foram realizados a Geddel. Eu era o principal elo de comunicação entre Geddel e a Odebrecht. Eu e Geddel nos falávamos com muita constância, seja para tratar de assuntos da empresa, seja para tratar de assuntos pessoais, pois criamos uma relação muito próxima".

Essa proximidade, se comprovada, coloca em xeque a necessidade apontada por Funaro de toda uma triangulação entre ele, Yunes e um emissário para que o dinheiro chegasse a Geddel, pois Melo Filho nada fala sobre o R$ 1 milhão ter passado por Yunes para chegar a Geddel. A operação teria passado ao largo do próprio diretor da Odebrecht.

Melo Filho disse que, em 2014, a empreiteira fez três doações oficiais em apoio a Geddel: R$ 1,7 milhão da Odebrecht para a direção estadual do PMDB e para a campanha do baiano e outro R$ 1 milhão da Braskem, o braço petroquímico da Odebrecht.
Segundo o delator, as doações oficiais foram submetidas por ele a Marcelo Odebrecht, que as autorizou.

Em outro trecho do anexo que entregou à PGR, Melo Filho disse que chegou a ser procurado por Geddel, em algum momento entre 2011 e 2014, para dizer "estava ajudando a Odebrecht dentro da" Caixa Econômica Federal, onde o político da Bahia exerceu o cargo de vice-presidente setorial. A defesa do ex-ministro Geddel, procurada pela reportagem, não foi localizada na noite desta quarta-feira (13). (Folhapress)



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