ARTIGOS

Uma rua


Aldo Vannucchi

O Sete de Setembro que passou me fez pensar na rua 7 de Setembro, por onde tantas vezes passei e passo. Não há município brasileiro que não tenha essa rua. Mais que lembrar Dom Pedro I, deve ser pelo sonho que todos temos de uma independência real de nossa pátria. De qualquer forma, a nossa rua 7 de Setembro aí está, com muita história passada e exuberante vitalidade presente.

Aluísio de Almeida conta que ela foi aberta no segundo aniversário da Independência, por pressão popular sobre os vereadores e contra o "grande potentado Américo Antônio Ayres", proprietário daquela paragem fechada a sete chaves. Para os tropeiros, o que antes era apenas atalho tornou-se caminho certo para a feira anual de muares, como que antecipando o vigor comercial dessa via central, nos dias de hoje, onde se compra de tudo: de parafuso a carro seminovo (na verdade, usado!).

Para mim, a informação do nosso historiador é uma lição a ser retomada. Quando os munícipes se unem por boa causa, as coisas acontecem. Dois séculos atrás, a população sorocabana armou motim, para garantir o hoje tão cobrado direito de ir e vir. Pela abertura da rua, viu-se "o povo amotinado legalmente, isto é, reunido a toque de sino na Câmara e obrigando os vereadores a fazerem sessão". E assim o povo celebrou o caminho novo, aberto a partir da Praça do Mercado, hoje Nicolau Scarpa, até o Largo do Pito Aceso, que virou então da Independência e agora é a praça 9 de Julho.

E por falar nessa praça, me vem à telha uma velha ideia. Não custa sonhar, mas um dia a Prefeitura Municipal, chefiada por algum prefeito corajoso, vai ter que abrir um túnel sob esse belo e congestionado espaço, aproveitando o alto relevo da parte final da 7 de Setembro. Seria um desafogo para o trânsito nesse local e uma prova concreta de que, para não acabar travada, a cidade precisaria desse e de outros túneis e mais alguns viadutos.

Mas a nossa rua oferece, já na atualidade, algo mais que uma possível solução de tráfego. É que no nº 344, à direita de quem sobe, temos algo muito significativo para se reverenciar. Se a 7 de Setembro é a rua da Independência, só poderia estar ali uma instituição que ensina e pratica essa dimensão essencial da pessoa humana.

Refiro-me à Asac, a Associação Sorocabana de Atividades para Deficientes Visuais, sociedade civil filantrópica, sem fins lucrativos, voltada a habilitar, reabilitar e integrar os portadores de deficiência visual de todas as idades. Com dedicada equipe de profissionais da saúde e da educação, aquelas pessoas ali recobram sua independência biopsicossocial, pelo desempenho progressivo de variadas tarefas, ganhando assim autoconfiança na sua mobilidade urbana.

Pelo visto, então, a nossa rua 7 de Setembro é mesmo singular, porque nasceu de uma luta popular, pela topografia providencial que tem, pelo seu comércio multiforme e pelo abrigo institucional que oferece a tanta gente especial.

Nesta semana da Independência, se essa rua fosse minha, eu não mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante, mas talvez a enfeitasse com a bandeira nacional, com ordem e progresso, sim, mas com Independência real.


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