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Brava gente brasileira...


Gente brasileira anda brava

com as imagens e notícias

Edgard Steffen

No Dia da Pátria, estivessem onde estivessem, membros de nossa família davam jeito de voltar para casa. Sete de setembro era aniversário de Christiano João Martinho Steffen, meu pai, cidadão que tinha orgulho tanto de sua ascendência (neto de alemães e suíços) quanto de ser brasileiro.

De alguma forma, todos estávamos envolvidos nas comemorações. Gilberto, o mais velho, vinha com a família. Lauro e Oscar, servindo o 4º RAM (Regimento de Artilharia Montada) cuidavam de lustrar botas e vistoriar as respectivas fardas para o desfile em Itu. Júlia incumbia-se de hastear a bandeira na frente da casa, sede da agência dos Correios e Telégrafos. Yolanda, professora, passava seu melhor vestido para acompanhar alunos no desfile da pátria. Lúcia, professora de educação física, coordenava o desfile na cidade de São Pedro, com o olho no relógio e nos horários de trem porque, voltava para Indaiatuba, ainda que fosse para pegar só um pedacinho da festa familiar. Eu, menino, e minhas irmãs (que frequentavam escolas profissionais) limpávamos nossos tênis, antes de passar alvaiade, preparando-nos para os respectivos desfiles.

Da cozinha -- com forno e fogão a lenha -- gostoso aroma de temperos e assados. Minha mãe e auxiliares em azáfama no preparo dos pratos que acompanhariam a leitoa ou cabrito do almoço comemorativo.

Meu pai, após tomar as últimas providências para a reunião de família, ia para a janela de casa assistir ao desfile. Era louro, olhos azuis, alto e magro. Frequentara apenas três anos de escola, mas lia e escrevia bem. Expunha suas ideias com clareza. Na biografia usada para justificar a indicação de seu nome para importante via da cidade, o autor da lei escreveu: "Não somente por sua estatura moral, prestígio social e político, mas, especialmente, por causa de seu elevado senso de justiça era conselheiro e mediador em questões de divisas territoriais, partilha de bens, desavenças familiares, etc. Nesse particular muito fez em benefício dos humildes que não tinham condições para contratar um advogado." Foi juiz de paz, vice-prefeito, vereador, delegado de polícia e presidente da Comissão do Centenário de Indaiatuba. Foi um dos fundadores do E. C. Primavera, da escola alemã no bairro Buru e da Igreja Luterana no município.

Cristiano Steffen terminou seus dias como humilde funcionário público municipal. Deus concedeu-me o privilégio dele ter assistido minha colação de grau em Medicina. Seus olhos brilharam no dia de minha formatura. No início de 1957, adoeceu e, sem jamais se queixar, enfrentou a insidiosa moléstia que o levaria em junho.

Na vida política, meu pai acompanhou seu amigo major Alfredo Camargo da Fonseca* nos 27 anos de mandato deste como intendente e prefeito de Indaiatuba. Alcaide probo, da República Velha, morreu pobre. Possuía fazenda ao iniciar sua gestão; ao morrer, restara-lhe apenas a dignidade que o acompanhou em seu caixão de pinho. A República era velha, o pensamento conservador, mas a coisa pública era respeitada.

Conjecturo a indignação dos dois velhos amigos se pudessem ser informados do que está acontecendo nestes dias. Políticos pseudoprogressistas corruptos, em contubérnio com empresários gananciosos apequenaram círculos do poder na amada Pátria. Transformaram partidos e governos em balcões de negócios.

Neste sete de setembro, 2017, a saudação da brava gente brasileira à "amada, idolatrada / Salve! Salve!", soa mais como pedido de socorro...

(*) Patente da Guarda Nacional

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados nesta página. edgard.steffen@gmail.com

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