ARTIGOS

Vidraças: os grandes inimigos das aves


Augusto J. Piratelli
peratelli@ufscar.com.br


As grandes cidades modernas são repletas de edifícios e suas reluzentes vidraças. A poluição sonora e do ar, o ruído dos pesados veículos motorizados e a falta de planejamento das cidades latino-americanas fazem com que elas sejam pobres em biodiversidade. Muitos certamente se lembram daquele desenho animado que se passava no futuro, em uma cidade nas alturas, com carros voadores, sem árvores e com prédios repletos de vidraças. Essa era a modernidade que se pensava no século passado.

Felizmente evoluímos, nossos conceitos mudaram e hoje muita gente valoriza demais as áreas verdes, respeita a natureza e busca uma qualidade de vida melhor. As leis mudaram, a nossa concepção alterou-se. Atualmente pensamos em parques urbanos, ruas arborizadas, prédios "verdes", reciclagem de lixo, transporte público de qualidade e menos carros nas ruas. Mas mesmo assim, um grande inimigo da biodiversidade, sobretudo das aves, permanece impávido na paisagem urbana. Pouca gente, ou mesmo poucos profissionais envolvidos com construção civil e planejamento urbano, se dão conta e continuam com as construções repletas de grandes áreas envidraçadas e reflexivas. Isso tem levado à morte muitas aves, e o inimigo permanece silencioso.

Cerca de 1 bilhão de aves morrem todos os anos por colisões em vidraças, apenas nos Estados Unidos e Canadá. Sabemos isso porque naqueles países há muita preocupação dos cientistas e de toda a sociedade para com esse problema. Eles avaliam, monitoram e desenvolvem medidas para diminuir esse problema. Lá, eles mapearam os principais motivos pelos quais esses acidentes ocorrem. As aves não enxergam os vidros; os espelhados refletem o céu, os translúcidos dão a sensação de continuidade do horizonte. Assim, incapazes de detectar esses obstáculos, elas vão de encontro às vidraças, onde frequentemente encontram a morte. No Brasil, quase nada sabemos sobre isso. Embora haja muitos sites em português que abordem essa questão, em geral não há dados científicos que possam apontar as situações de maior risco, ou mesmo se podemos assumir que os nossos problemas são os mesmos da América do Norte. Temos clima, vegetação e concepções urbanas diferentes e, além disso, as aves não são as mesmas.

Menos ainda conhecemos sobre as medidas preventivas. Nos países acima citados, eles testaram e sugeriram vários métodos, incluindo listras verticais ou horizontais e películas e adesivos que refletem luz ultravioleta. Por aqui, nosso grupo fez uma pesquisa no campus da UFSCar buscando testar se a aplicação de silhuetas de aves de rapina -- um método muito popular no Brasil -- poderia minimizar esses acidentes. Não funcionaram, as colisões continuaram. Estamos discutindo outros métodos, precisamos urgentemente estancar essa sangria; a ideia é fazer com que as aves percebam a presença de um obstáculo, então as medidas mitigadoras precisam combinar eficiência, estética e baixo custo. Um trabalho de revisão bibliográfica elaborado por um aluno meu revelou que os tipos de vidraças precisam ser repensados: por exemplo, muitos painéis pequenos são preferíveis a um único e enorme painel envidraçado; o ângulo de abertura das janelas não pode refletir o céu. Vegetação e alimentadores próxima às janelas também são problemáticas, reduzem ainda mais a percepção pelas aves e contribui para aumentar a tragédia.


Acima de tudo, todo mundo precisa se envolver. Melhorar isso, frequentemente, tem sido iniciativa de grupos ou pessoas isoladamente, com pouco atuação efetiva do poder público. Precisamos repensar nossas construções e reavaliar o nosso conceito de estética. Estético é aquilo que harmoniza com a biodiversidade, não uma máquina de moer animais.

Augusto J. Piratelli é professor da UFSCar campus Sorocaba - piratelli@ufscar.br



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