ARTIGOS

Independência ou morte


José Milton Castan Jr.

Você tá aí neste feriado relaxadão, relaxadona, de boa, tipo papo pro ar.

Ou talvez não seja o caso, pois apesar do feriado, os problemas continuam te pressionando.
Escrevo para ambos, e aproveito o mote "independência ou morte".

Cumpro antes meu dever cívico: vale lembrar, assim conta a história oficial, que no dia 7 de setembro de 1822 às margens do riacho Ipiranga, D. Pedro I, então Príncipe Regente, declarou a independência do Brasil colônia, emancipando-se de Portugal. O símbolo deste ato foi o grito de "Independência ou morte". Assim o Brasil se liberta da condição de colônia e da mesma forma, da subserviência a Portugal.

Justo e legítimo alguém exercer seu direito de viver e agir livremente, independente do jugo alheio. No entanto em se tratando de aspectos psíquicos pode ser mais difícil agir livremente e de maneira independente. Explico: é do senso comum que para você ser feliz basta que aja de acordo com sua razão. Essa é a tradição filosófica e diz respeito ao conceito grego que um corpo nasce e aprisiona uma alma que se encontra no cosmos. Como a alma é filosófica intelectiva e o corpo desejante, para se viver feliz basta que o corpo atenda à racionalidade da alma. Entende-se, portanto, que há liberdade de escolha, há independência nas decisões. No entanto a coisa não é assim tão simples, até porque se fosse, seríamos todos pessoas felizes, posto que cada um sabe o que de melhor fazer para ser feliz. Mas na verdade não o faz, ou melhor faz muitas vezes diferentemente do que a razão manda, ou seja, o livre arbítrio encontra-se comprometido. É aqui que a ideia de dependência entra.

Me diga quando foi? Talvez hoje mais cedo, quiçá ontem? Mas certamente você já se deu conta do seguinte:

-- Nossa! Não sei como pude falar aquilo, nem pensei, quando vi já tinha falado!

Ora "nem pensei". Então quem pensou?

Quer outro exemplo:

Você dirigindo e na sua esquerda vem ultrapassando outro carro com a seta ligada indicando que irá entrar à frente. Bem possível que você dê uma cutucada no acelerador para dificultar a tomada da frente, e veja, esse ato normalmente é involuntário, sem pensar.

Note que em ambos exemplos o comportamento não foi livre, mas condicionado e dependente de força não consciente. Então não temos livre arbítrio? E podemos justificar todos nossos erros responsabilizando nosso inconsciente? Claro que não!

Agimos pela razão, bem como pela não razão. Aquilo que você faz e age não é resultado apenas daquilo que você pensa, mas existe uma outra força que compõe e influencia suas ações. Portanto o comportamento humano é resultado da composição de um vetor pensante e outro não pensante, também conhecido como inconsciente.

Muitas vezes o sofrimento advém exatamente destas forças inconscientes. Por exemplo alguém se percebe angustiado. Esta angustia é inominável, ou seja, existe um medo ou preocupação não declarada, não acessível ao consciente e que causa o sofrimento. E a pessoa não tem liberdade nem independência de se autorregular e sair do sofrimento. O caminho para a independência, ou seja, se autodeterminar é de alguma maneira trazer para a consciência, para a racionalidade os aspectos que impigem sofrimento.

Assim, se você neste feriado está mais preocupado e pressionado com seus problemas, avalie o quanto eles são reais e qual parcela faz parte apenas da sua imaginação. Não se esqueça que alguém um dia falou que 99% do problemas que imaginamos, jamais acontecem.
Por fim, se ainda assim continuar sofrendo e impossibilitado de encontrar independência, ou caminhos para superar, pense em procurar uma terapia. Independência ou sofrimento. E sofrimento pode levar a morte!

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br



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