ARTIGOS

"Yojimbo": ausência de Estado, estado de violência


Nildo Benedetti

Yojimbo, filme de 1961 de Akira Kurosawa, é o terceiro dos três filmes japoneses que estão sendo exibidos na Sala Fundec neste mês.
Na semana passada, escrevendo sobre o filme Estranha vingança, nos referimos ao acordo de 1854 que forçou o Japão a abrir seus portos para a marinha dos Estados Unidos, provocando o fim da força política e militar dos samurais e a extinção do Xogunato em 1867. Yojimbo se passa em 1860, no momento da ascensão social e política da classe mercantil, impulsionada pela abertura forçada dos portos. Os samurais, sem ter um senhor a quem servir se viram forçados a buscar outras fontes de renda no comércio, no funcionalismo público, na indústria ou mesmo no campo. Alguns se tornaram errantes, como o protagonista de Yojimbo, Sanjuro Kuwabatake.

Sanjuro chega a uma cidade em que duas facções estão em guerra violenta. De um lado está Seibei, que dirige a casa de gueixas e de jogo e que trabalha para um comerciante de seda. Do outro lado está Ushitora, que trabalha para um negociante de saquê. Os dois lados têm exércitos privados de bandidos. A cidade parece abandonada porque a população atemorizada mantém as portas trancadas e as persianas fechadas. A guerra contínua pela supremacia do local tem breve trégua apenas quando inspetores do governo vêm à cidade, o que raramente acontece. Nessa condição, o Estado, ainda que formalmente constituído, está ausente e, portanto, não cumpre a função fundamental de conter a violência dos humanos.

Abominando a selvageria que vigora no local, Sanjuro assume a tarefa de restabelecer a ordem na cidade, livrando-a dos responsáveis por aquela situação. Orientado por princípios do Bushido como justiça, coragem, compaixão, atuando com sabedoria e manejando a espada com habilidade, ele ora serve a um contendor, ora ao outro e faz que as duas facções se destruam mutuamente.

O filme também põe em confronto duas classes sociais. De um lado a que está definhando, a dos samurais do antigo Japão como Sanjuro, com valores de honradez e de justiça -- embora protagonizando a violência inerente aos seres humanos de qualquer lugar, em qualquer época. De outro, a que está em ascensão, a dos comerciantes, que na hierarquia dos samurais ocupava posição inferior a de lavradores e artesãos, que enfrenta os concorrentes com violência e trapaças e que usa revólver ao invés da espada. A vitória de Sanjuro é a vitória dos valores éticos da cultura japonesa sobre os valores de uma classe que representa a ferocidade da economia de mercado que estava sendo introduzida no Japão pelo Ocidente. O que motivou os comerciantes a se engalfinharem foi o dinheiro; o que motivou Sanjuro a se engajar em uma empreitada arriscada, em que quase perde a vida, não foi o dinheiro farto dos contendores -- de que ele poderia tirar proveito por sua habilidade na espada --, mas foram os valores solidamente incorporados do Bushido.

Muitos lamentarão o fim de uma época da história do Japão tão rica em peculiaridades artísticas, culturais e morais.


Serviço

Cine Reflexão
"Yojimbo" de Akira Kurosawa
Hoje às 19h na Fundec (rua Brigadeiro Tobias, 73)
Entrada gratuita


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