ARTIGOS

Persistência em empreender


Flavio Amary

É verdade que muito já evoluímos, quando comparamos o momento de hoje com o da década de 80 e início dos anos 90 do século passado, com inflação totalmente fora de controle, forte desvalorização cambial e pacotes econômicos frequentes, em alguns anos com períodos por vezes inferiores a 12 meses.

A falta de previsibilidade no Brasil é antiga, pois estamos em constante construção e alteração de regras e, a todo tempo, novas legislações são concebidas e alteradas influenciando, fortemente, a atividade econômica, na maior parte das vezes, negativamente.

Uma cultura que, historicamente, não valoriza aquele que coloca seu patrimônio em risco, por vezes com empréstimos, a custos elevadíssimos, para construir um projeto, gerar empregos, desenvolver um empreendimento em diversas áreas e indústrias.

Nos últimos anos, com a necessidade legal de ""fechar as contas"", muitos gestores públicos olham apenas a coluna da receita de seus orçamentos e, a cada dia, a carga tributária, em nossa sociedade, fica mais alta, desincentivando a produção. Está errado, a estrutura pública, hoje, precisa rever seus gastos, focando na coluna das despesas e buscando formas de diminuir seu custeio, e não estou falando de cortes nos investimentos e sim na redução do tamanho do Estado que a cada dia fica maior e incompatível com nossa realidade.

O país precisa crescer, e incentivar o empreendedorismo com a estabilidade das regras e com uma carga tributaria compatível. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não deveria ter sido utilizado para financiar o porto de Mariel em Cuba, com tantos investimentos necessários em nosso país, e isto apenas para citar um exemplo em dezenas de ações tornadas públicas.

As taxas subsidiadas para uns, que não estão disponíveis para todos, não é razoável, nem mesmo justa, em uma economia de mercado. O nosso povo, entre outras características, tem uma enorme virtude: a criatividade e a disposição para o trabalho.

Estamos evoluindo, uma agenda microeconômica que tem buscado diminuir a burocracia está sendo implantada, gradativamente, em nosso país, mas precisamos, igualmente, da previsibilidade. Para todas as indústrias, de longo prazo, é preciso saber que as regras vigentes valerão para o empreendimento que está sendo concebido.

Na indústria imobiliária, onde a concepção de um empreendimento e sua entrega final chega facilmente em cinco anos, podendo demorar muitas vezes mais de 10 dez, as mudanças das regras são altamente prejudiciais e muitas vezes os riscos assumidos é de difícil mensuração.

Regras nos licenciamentos, zoneamentos, financiamentos, tributos e ainda a insegurança jurídica causada por eventuais questionamentos judiciais, depois de todo processo aprovado.

Tenho certeza que boa parte dos 14 milhões de brasileiros desempregados são potenciais empreendedores e por meio de micro e pequenas empresas poderiam começar a gerar renda, ativar a economia, pagar impostos, e grande parte do problema poderia ser solucionado.
A responsabilidade de nossos governantes é muito grande neste processo de evolução, mas é cada dia mais importante dedicar energia na diminuição do tamanho do Estado para que as alterações tributárias sejam, a partir de hoje, para a redução da carga e não para discutir quando e qual imposto ou contribuição aumentar.

A falta de previsibilidade e os solavancos na economia e política ainda tornam verdadeiros sobreviventes aqueles que ainda se dedicam a empreender gerando emprego, renda e impostos em nosso País. Embora com toda a dificuldade, vamos continuar trabalhando para construir um país melhor.


Flavio Amary é presidente do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP) e reitor da Universidade Secovi - famary@uol.com.br



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