OUTRO OLHAR

Você é o protagonista


Carlos Araújo

A vida é um tie-break.

As coisas mais importantes acontecem habitualmente no último instante do limite possível. E, como num jogo de vôlei, o clima de atuação nesse momento, seja qual for o cenário e o desafio, vem acompanhado de pura adrenalina, alta voltagem, risco máximo.
A vida é uma luta de boxe.

Nunca o imponderável está mais latente nessa reta final. É a fase da existência em que o risco de incerteza é iminente. A união da técnica e da vontade de vencer é a única saída, mas nem esse recurso é suficiente para garantir a superação tão sonhada. Um erro mínimo pode determinar o desastre. E um acerto garante a salvação do indivíduo.

A vida é um combate no octógono.

Quantas vezes você empurra com a barriga uma dívida que não consegue pagar. O valor se acumula e cresce a cada dia, a cada semana, a cada mês. Até que assume uma proporção impagável. Você entra em desespero e busca socorro. A sensação é de que está perdido. Você joga na loteria, reza, chora, perde o sono. E não sabe como será o amanhã.

A vida é uma corrente de esperança.

Você está diante do médico para receber o diagnóstico apurado em exames complexos. Absorvido pela tensão, você tenta manter o equilíbrio, o controle emocional. Estar sentado nessa hora é uma necessidade, pois você pode desmaiar com o choque quando o médico revelar o seu problema de saúde. Ou pode sentir um alívio indescritível, se as suspeitas não forem confirmadas.

A vida é uma competição desigual.

Você procura emprego há meses, há anos, e de repente há uma oportunidade daquelas que surgem uma vez na vida. Sem ter como ser diferente, você se transforma em um poço de ansiedade quando atende ao chamado para saber se foi aprovado ou não no processo seletivo da empresa. As vagas são limitadas e os concorrentes são muitos.

O saguão de espera está cheio. Cada candidato chamado à sala do chefe de recursos humanos carrega um caminhão de esperanças. E a cada pessoa que retorna da sala, o sorriso ou o semblante cabisbaixo diz mais do que qualquer palavra. A expectativa de ouvir o seu nome a qualquer instante o deixa à beira de uma encruzilhada: um caminho leva ao emprego, e outro, de volta às ruas. Qual será o seu rumo?
A vida é um labirinto de armadilhas.

De repente, numa rua escura, você depara com um assaltante e ele o ameaça com uma arma. Estranhamente, a relação de credibilidade entre criminoso e vítima se estabelecem imediatamente. Você não reage porque sabe que o cara vai apertar o gatilho se isso acontecer, e ele não atira porque sabe que você não é louco de colocar a sua vida em risco. Melhor deixar que o ladrão leve o relógio, a carteira e os documentos. Se o bandido desaparecer sem dar um tiro, você já pode se considerar um cara de sorte. E um sobrevivente.

A vida é uma batalha sem fim.

Você está diante da urna eletrônica e sabe que o seu voto é uma ação que vai determinar o que será feito do buraco da sua rua, do seu emprego, da sua aposentadoria. Você tem consciência de que escolher o seu representante na política é como entregar um cheque em branco nas mãos de alguém, sem garantia de nada. O voto é de confiança. E na maioria das vezes a decepção será devastadora.

Diante do quadro, você também não cansa de fazer autocrítica. E chega à conclusão de que, após a votação, você pode não ter o governo que quer, que merece e que o representa, mas tem o governo que aprova e que permite para o seu país. A angústia é cruel, grotesca. A dor é cortante. E você começa a duvidar das ideias de estado de direito e democracia. Você não entende como a democracia permite a política da corrupção, do balcão de negócios, da compra de votos com dinheiro público. E tudo feito às claras. Como se fosse normal. E nada acontece. Como se não existisse povo. Como se não houvesse justiça nesse mundo. E isso lhe faz um mal danado.

Você critica o governo, num redemoinho que tem sido o esporte preferido de grande parte dos brasileiros. Mas você não consegue negar ou rebater a constatação de que pesam sobre os seus ombros toda a responsabilidade por tudo o que acontece nos labirintos de Brasília. Foi você que povoou os palácios e os castelos da capital do país. Chega de fazer papel de vítima numa novela em que você é o protagonista.
A vida é uma grande ilusão.



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