OUTRO OLHAR

Um 'zap' para alguém distante


Carlos Araújo

No semáforo, enquanto estavam todos parados diante do sinal vermelho, o cara que dirigia um Fusca teclou uma mensagem no celular:
-- Estarei aí amanhã, às cinco da tarde.

Só ele sabia quem era o receptor da comunicação, qual seria a distância percorrida, o lugar de destino e o motivo do deslocamento. Veio o sinal verde e ele avançou.

No caminho, enquanto o carro se movimentava, ouviu o toque do celular. Devia ser o retorno do aviso. Difícil resistir. Com o carro em velocidade, consultou o "zap" para conferir a resposta. E leu:

-- Legal, te espero amanhã.

Em sentido contrário, um cara de boné, no volante de uma Saveiro, atendeu a uma chamada do smartphone também com o carro em movimento. Depois de ouvir a voz de uma garotinha, a filha única, respondeu:

-- Está bem, o papai leva o presente que você pediu.

Esse cara de boné parou no semáforo, atrás de um Audi, e não viu que o motorista do Audi lia um "zap" que acabava de receber:

-- Você vem ou não vem? Está uma hora atrasado.

O sinal abriu e o cara do Audi demorou um instante para sair com o carro. Tempo suficiente para digitar:

-- Estou a caminho. Tenha paciência. Chego em meia hora.

Ainda atrás, o cara de boné buzinou. Por um instante pensou que o Audi tivesse algum problema mecânico, mas viu que não era nada disso. Que bom que sou paciente, pensou o homem de boné.

Próximo dali, uma estudante em um Fiat ouvia ao mesmo tempo um som do U2 e, via "zap", discutia a relação com o namorado. O semblante dela era de satisfação. Acabavam de fazer as pazes depois de um desentendimento. Ela leu o "zap" do namorado:

-- Me perdoa por ter sido incompreensivo.

E ela digitou, enquanto acelerava o carro:

-- Só te perdoo se você me levar à praia nesse fim de semana.

Em outro lugar, numa esquina, um HB20 que seguia na preferencial parou para dar passagem a um Jeep. Era um lance de instantes. O condutor do Jeep não percebeu a generosidade do outro motorista porque, como os demais, também lia e digitava um "zap".

Quando o cara do HB20 percebeu que o do Jeep não se movia, então engatou a marcha e cruzou a rua. Nesse momento, o motorista do Jeep digitou para alguém:

-- Quero que você me diga se estudou para a prova de amanhã.

Não viu quando um homem com aparência de morador de rua se aproximou e lhe pediu dinheiro. Também não respondeu, porque a atenção ao "zap" não lhe permitia perceber qualquer outra movimentação ao redor.

Um carro de reportagem com motorista, repórter e fotógrafo passou pelo Jeep e disparou na direção de uma autoestrada próxima ao perímetro urbano da cidade. Lá, se surpreenderam com um Fusca destruído num acidente.

Consta que o motorista do Fusca foi achado morto entre as ferragens. A mão direita dele segurava um celular. No momento da colisão, ele acabava de posar para uma selfie tirada do interior do carro. A postagem da foto mostrava o cara com um sorrriso. O último "zap" dizia:

-- O trânsito está um inferno hoje.

O repórter saiu do local, sempre acompanhado do motorista e do fotógrafo, e se dirigiu ao outro lado da cidade. No trajeto, deparou com o capotamento de uma Saveiro. Equipes do Samu estavam no local para socorrer a vítima, um homem agarrado a um celular e a uma boneca.

Ninguém entendeu o apego desesperado à boneca. Ele ainda respirava e tentava dizer qualquer coisa. Nenhum dos socorristas conseguiu decifrar as frases ditas pela metade. Ouviram apenas a palavra "filha". Tiraram o celular e a boneca das mãos dele. Depois de ser estabilizado numa maca, foi conduzido ao hospital. Horas depois, não resistiu aos ferimentos.

-- Celulares no trânsito -- lamentou o repórter.

Por curiosidade, o repórter observou as ruas e avenidas por onde o carro do jornal passava e identificou todos os motoristas divididos nas atenções entre os "zaps" e o ato de dirigir.

-- Nenhum "zap" vale a vida - pensou o repórter.

Nesse instante, ele recebeu via celular a comunicação de mais um acidente de trânsito. Uma estudante, num Fiat, acabava de bater o carro em um poste e teve morte instantânea. No celular dela havia uma pergunta de alguém:

-- Para qual praia você quer que eu te leve?

Não houve tempo para a resposta.



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