SOROCABA E REGIÃO

'Faz tudo' ganha cada vez mais espaço no mercado


O "faz tudo". Função antigamente ocupada, dentro das casas, por alguns homens estilo Professor Pardal, está se tornando, com a correria do dia-a-dia, cada vez mais rara. E é aí que muitos daqueles que adoram consertar, ligar, emendar, arrumar encontram uma boa oportunidade de trabalho. Os chamados Maridos de Aluguel -- denominação que acabou se tornando sinônimo dos profissionais chamados para serviços de manutenção residencial rápidos e urgentes -- têm ganhado espaço no mercado e cada vez mais se especializando no "resolver qualquer problema."

"Já teve serviço que nem consegui cobrar", conta Anderson Missias Xavier, de 37 anos, que desde setembro do ano passado tem sustentado a família com esse trabalho. Casado e pai de dois filhos, ele se viu com um grande problema quando foi dispensado de uma empresa de segurança privada, na qual trabalhou por 12 anos. "Como já tinha experiência em construção civil, resolvi tentar, até como brincadeira. Fiz propaganda do Facebook e deu certo."

O serviço sem cobrança, ao qual Anderson se refere, foi na casa de uma mulher que reclamava que a válvula da descarga não funcionava. "Ela havia chamado outra pessoa, que disse que precisava trocar tudo e fechou a saída de água. Só abri", lembra. Neste dia, o combinado com a cliente foi de que, num próximo serviço, ela o chamaria de novo e indicaria Anderson para amigos e conhecidos. E é nessa propaganda boca a boca que ele -- e muitos outros Maridos de Aluguel -- tem se dado bem. Ele arrisca, inclusive, cobrar o que o cliente diz querer pagar. "Eles me falam o que precisam. Pergunto quanto estão dispostos a pagar. Se for muito pouco, a gente negocia. Mas, normalmente, as pessoas estão dispostas a pagar o que o serviço vale mesmo. Mas se for muito longe, preciso cobrar o combustível da moto."

Prática de mercado

Flexibilidade na negociação também é uma prática adotada por Gustavo Romão, de 30 anos. "A concorrência por preço está muito grande. Pergunto quanto a pessoa quer pagar e a maioria não sabe dar preço. E daí já quebramos a barreira da negociação", diz. Há sete meses como Marido de Aluguel, ele usa um nome profissional que, segundo seus clientes, representa bem seu trabalho: o detalhista. Administrador de empresas, depois de enveredar por vários ramos, percebeu que o dom de Professor Pardal, que tem desde pequeno, poderia ser uma forma de ganhar a vida. "Sempre fiz esses serviços do dia-a-dia para amigos, parentes e em casa. Quando me casei, a primeira coisa que levei para casa foi minha caixa de ferramentas", conta.

Ele diz que foge dos serviços grandes, pois seu foco está exatamente nos pequenos reparos do cotidiano nas áreas de elétrica, hidráulica e de alvenaria. Com o passar dos meses, naturalmente a clientela de Gustavo foi se formando com um perfil específico: a maior parte idosos, que estão sempre em casa e têm mais dificuldades para solucionar um chuveiro queimado ou uma tomada que não funciona. "Faço propaganda em locais frequentados por estas pessoas, como na feira." Foi com um panfleto em mãos conseguido dessa forma que Vera Corrêa, de 56 anos, resolveu chamar Gustavo, pela primeira vez, para fazer uma limpeza de caixa d"água. "Ele deu um preço muito justo. Fiquei com receio no começo, mas ele faz tudo muito bem. De lá para cá já instalou carpete de madeira no meu quarto e trocou disjuntor", elenca Vera. Já Anderson conta que grande parte de suas clientes são mulheres, das mais variadas idades, que não têm em casa alguém que as ajude nos trabalhos mais pesados. "O que eu mais faço é montagem de móveis." Neste quesito, inclusive, não são poucos aqueles que resolvem desmontar alguma coisa e depois não conseguem mais montar de novo. "Nessa hora, recorro à internet para procurar informações."

Sem dor de cabeça

O analista de sistemas Luiz Renato Boscariol, 34 anos, já é um veterano como Marido de Aluguel. Começou em Sorocaba há nove anos -- quando a ocupação ainda era uma grande novidade -- depois de se ver estressado e "no limite" com as funções que exercia num banco, na capital paulista. "Sempre consertava e fazia tudo para todo mundo, mas como uma forma de ajudar." Resolveu tornar a aptidão para consertar, arrumar, instalar e montar um negócio. De lá para cá, consolidou seu nome e uma carteira de 2,5 mil clientes, a grande maioria de alto poder aquisitivo. Para dar conta do negócio que cresceu, mantém quatro funcionários fixos, além de ajuda eventual. "Faço desde a instalação de uma prateleira até uma reforma", resume. Hoje, Renato é parceiro de vários arquitetos da cidade e conta que 50% dos seus serviços são em residências já prontas, mas que necessitam de reparos antes da entrada de novos moradores. "Mas continuo com foco nos pequenos. Não quero deixar de atender esse público, afinal foi isso que me motivou. Pode não ser tão vantajoso financeiramente, mas depois o mesmo cliente pode resolver reformar a casa."


Chuveiros e torneiras: campeões de chamadas

Os maridos de aluguel são unânimes em citar os chuveiros queimados e as torneiras pingando como campeões de chamadas. E dizem que precisam estar prontos para atendimentos de emergência e até inusitados -- o que é causado, principalmente, pela fidelização dos clientes. "Um dia fui atender uma cliente que o marido foi colocar algo na parede da lavanderia e furou o cano. Era 21h30 de um domingo", lembra Anderson. "Uma cliente pediu que eu fosse colocar ração e água para seu animal de estimação enquanto ela viajava. Fiz isso por duas semanas", cita Gustavo. Já Renato, chegou a atender com plantão 24 horas por dia nos primeiros seis meses como marido de aluguel. Não deu para aguentar a rotina pesada, mas ele diz que continua socorrendo os clientes em emergências. "Se for olhar a agenda hoje, só dá para marcar daqui três semanas. Mas gente sempre encaixa."


Para Anderson, o segredo de sobreviver no mercado é proporcionar facilidades aos clientes. "A pessoa mora na casa. Tem que afastar móveis, ser rápido, não fazer sujeira." A tecnologia também ajuda. "Peço para me mandarem foto, daí já consigo saber como está a situação e chego pronto para resolver." Para ele, o que vale é ter a clientela satisfeita. "Tem serviços que cobram R$ 100, mas dá para fazer por R$ 50." "A gente aproveita e vê se tem alguma fechadura que precisa de um óleo, ajuda nessas pequenas coisas do dia-a-dia", conta Gustavo, que uma vez deu uma solução para Vera que nunca havia sido pensada por ninguém em sua casa -- nem por seu marido, Laurindo Corrêa, de 59 anos. "Ele viu que a porta do meu carro batia na parede e, sem eu pedir, colocou uma proteção. Esse negócio de marido de aluguel resolveu minha vida", diz, bem-humorada, com a confirmação de que o marido "real" realmente não leva jeito e não gosta desse tipo de serviço.

Quanto custa?

Com essa prática de ampla negociação sobre os serviços cobrados, os maridos de aluguel ouvidos pela reportagem não têm tabela fixa. "Cobramos pouco. Às vezes, com clientes de alto padrão, isso é até ruim, pois acabam desconfiando da qualidade de serviço", conta Gustavo. Ao mesmo tempo, clientes antigos levam vantagem. Na tarde da última quarta-feira, depois de consertar tomadas na casa de Vera, Gustavo seguiu para um pacote de serviços que incluiu instalar varão de cortina, arrumar duas torneiras e dois pontos de energia e trocar um chuveiro por R$ 50 -- valor oferecido pela cliente. "A gente tem a confiança de que não está sendo enganado", afirma Vera.

Até por possui uma estrutura de maior custo para a prestação dos serviços, Renato não concorda que dê para cobrar muito barato. "Hoje em dia está tudo muito caro. No meu caso, eu atendo clientes que não querem se preocupar com nada. Compro todo o material e entrego o serviço pronto", diz, falando do perfil de sua clientela, que segundo ele busca alguém de confiança, que seja prestativo e tenha qualidade.


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