OUTRO OLHAR

Bom dia, Arthur


Carlos Araújo

Sabe, Arthur, você estava no útero de sua mãe e isso não foi suficiente para protegê-lo da violência mais sórdida que existe. Uma bala perdida inseriu o seu nome na lista das vítimas de tiroteios. E de uma forma inusitada: você foi atingido antes mesmo de nascer, quando estava na barriga de sua mãe. Agora, no hospital, você luta pela vida e corre o risco de ficar paraplégico.

Sem dúvida, Arthur, você é um símbolo do Brasil. Assim como os garotos Alan Kurdi e Omran Daqneesh se transformaram em marcos da tragédia dos refugiados e da guerra na Síria, o seu drama entra para a história como divisor de águas chocante na guerra civil não declarada que faz o Brasil contabilizar estatísticas de mortes iguais e até mesmo superiores a países em conflito.

O que aconteceu a você, Arthur, é típico do terrorismo à brasileira. Há muito tempo a violência no País já não é mais caso de polícia. O tamanho da catástrofe já não é mais uma questão de usar algemas e construir cadeias. Brasília (uma capital cujo nome você ainda vai ouvir falar muito) demonstra que tudo isso tem dimensões muito além das aspectos de segurança e do que os brasileiros imaginam.

Pois saiba, Arthur, que o culpado pela sua tragédia não é apenas quem puxou o gatilho. Há muitos responsáveis por esse estado de coisas. E eles estão em postos de comando de todas as esferas de poder, num leque de extensão que vai da menor à maior das instituições. Muitos fazem promessas e discursos falidos por natureza, nos quais nem eles mesmos acreditam. Outros se valem de delações premiadas para fugir de punições ou reduzir os anos de condenação.

O mundo que o recebe é assim porque toda desgraça é resultado de um processo histórico dirigido e comandado por vilões e desprovido de super-heróis. Nada é por acaso. Nesse cenário, você teve as piores boas-vindas. Parece ficção, realismo mágico, história inventada, sem nenhuma lógica.

Sua mãe havia comprado o seu carrinho de bebê momentos antes de ser atingida pela bala na barriga. A realidade que envolve a sua história é insuportável demais para ser admitida como verdade. E, para quem duvidasse, o registro do acontecimento está na televisão, nos jornais, na internet, na memória das pessoas que reagiram com sentimentos de dor e revolta.

Depois de você, nos dias seguintes, as balas perdidas mataram duas mulheres (uma mãe e sua filha) e uma menina. A situação chegou a tal ponto que os tiroteios prejudicam as aulas nas escolas. Alunos e professores são obrigados a seguir medidas de guerra para buscar proteção em corredores e salas fechadas. Em outras regiões do País, os latrocínios e homicídios abatem vítimas de todas as idades. Quadrilhas aterrorizam municípios com explosões.

O incrível, Arthur, é que os responsáveis por esse caos gastam tempo e energia em discussões exclusivas dos seus interesses pessoais e de grupos. Pode crer: nem sabem que você existe. Ou o ignoram. Corações de pedra. Travam duelos num mundo que não é o seu. Parecem viver em outro planeta. São capazes de negar a existência do sol debaixo de um calor de 40 graus. E são incapazes de se reconhecerem como culpados pela bala que antecipou o seu nascimento.

E pensar, Arthur, que bebês como você são o futuro do Brasil. Isso abre uma inquietação indescritível: o que dizer de uma sociedade que não consegue proteger seus bebês e suas mulheres grávidas?

Tudo isso é muito triste, Arthur. Tudo isso é terrível. Ainda mais porque não há solução à vista. Enquanto que na geografia dos espaços há sempre um horizonte, na textura do terrorismo à brasileira não há nenhum limite previsível. Não há recursos para a segurança pública e outras prioridades, mas sobram milhões de dólares para pagamentos de propinas. E não é despropósito acreditar que as coisas ainda podem piorar muito.

O mais grave é que nada acontece. Os brasileiros sofrem as consequências, comovem-se com a sua história, lamentam o seu destino. Habitualmente grupos se juntam pedindo paz, ficam cruzes na areia em protesto contra as mortes, choram e agonizam em público. Nada além disso. Nada com força de transformação.

Sinto muito, Arthur, pelo mundo que os adultos prepararam para recebê-lo. Sinto muito pela recepção. Talvez eu devesse lhe pedir desculpa. Você acaba de nascer e já integra a estatística dos sobreviventes. Quem sabe seria mais digno se eu lhe confessasse a minha imperdoável culpa por ser incapaz de criar uma sociedade de paz para os bebês como você.

Bom dia, Arthur.



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