OUTRO OLHAR

Terrorismo à brasileira

Você apela para a religião, cartomantes, times de futebol, crendices, piadas, nada escapa como tábua de salvação. Você se sente um náufrago nesse mar de ilusões. E, pior, não há o que fazer   Como conviver com tantas notícias alucinantes? Exemplos: amiga é assaltada no centro de Sorocaba; aplicativos indicam locais de tiroteios no Rio; criminosos do colarinho branco manobram para se livrar das acusações de corrupção; chacina deixa cinco mortos na madrugada; centenas de pessoas disputam uma única vaga de emprego em supermercado; demora no atendimento causa revolta em posto de saúde; vândalos destroem escola e roubam merenda dos alunos.   Como acontece no processo de depuração das dores, as reações diante dessas tragédias são marcadas por estágios: no primeiro momento você fica com medo; depois, vem a revolta; em seguida, a raiva; até o momento em que você aceita esse destino.   Você se fecha na sua casa ou apartamento, trava as portas, faz orações, confia na proteção divina e vai dormir com certa sensação de segurança. Ou você mora em condomínio fechado, com ruas monitoradas por câmeras e vigilantes e portarias rigorosas no controle de quem entra e quem sai.   Nesse ambiente, em nome da ilusão de tranquilidade, você nem se incomoda com a existência de regras semelhantes às das prisões. Você pode ter até carro blindado, o que aumenta a sensação de segurança, e reconhece que tem o privilégio de fazer parte do topo da pirâmide.   Em outra região, você é o cara que desce do ônibus alta noite, vindo da escola, e caminha dois quilômetros por ruas desertas para chegar em casa. O sopro do vento gelado e o latido de um cachorro ao longe causam arrepios. Você avança ligeiro, quase correndo, e só respira de alívio no instante em que entra em casa e fecha a porta.   Na manhã seguinte, você sai às cinco horas para pegar o busão e faz a travessia do mesmo trecho deserto. O vento continua gelado e agora não há mais o latido do cachorro. O medo é uma companhia inseparável nessa hora. As histórias de assaltos nesse trecho provam que você pode ser a próxima vítima a qualquer momento.   Mãos nos bolsos, passos rápidos, você não sabe se torce para que apareça alguém e lhe faça companhia nesses minutos de grande tensão ou se prefere continuar sozinho porque alguém que surgir nesse escuro pode ser um ladrão com a arma apontada para a sua cabeça. E não há nem iluminação pública. Poucas luzes esparsas em algumas casas projetam réstias de claridade.   Você vai ao trabalho. Dá graças aos céus por ainda ter emprego numa época em que tantos vagam pelas cidades como que expulsos do mercado de trabalho. Você produz riqueza, paga impostos, encara a marmita, estuda para a prova na hora do almoço, vai para a escola à noite, dribla o sono e o cansaço e depois pega o busão de volta para casa. Você faz parte da base da pirâmide.   Seja integrante do topo ou da base, você tem tudo a ver com as notícias alucinantes. Como que para se preservar, você até tenta não dar atenção aos acontecimentos. Até porque, você argumenta, o que pode fazer diante dos descalabros de uma sociedade culturalmente ameaçada pelo terror da mentira, da desconfiança, da incerteza?   Você sabe que esse clima dá um molho amargo à tragédia e à comédia de viver uma era de caos como no ano da graça de 2017? E pensa em tudo: em sair do país, mas essa não é uma alternativa ao alcance de todo mundo; em ser empreendedor, mas você sabe que na maioria dos casos essa palavra não passa de retórica; em levar vantagem de alguma forma, mas para isso é necessário ultrapassar os limites éticos e esse tipo de comportamento não lhe pertence. Você apela para a religião, cartomantes, times de futebol, crendices, piadas, nada escapa como tábua de salvação. Você se sente um náufrago nesse mar de ilusões. E, pior, não há o que fazer. Dizem que votar corretamente é uma saída, mas você já nem acredita mais nisso. E, pior ainda, ninguém se apresenta com capacidade para fazer por você o que você acha que tem ser feito para sair desse labirinto de ameaças.   Então, você prefere a fuga: não ler, não saber, não pensar, não se sentir parte de nada. Impossível. Você também pode ser assaltado, ter que consultar aplicativos para fugir de tiroteios, ser vítima do criminoso do colarinho branco que roubou dinheiro público, estar no lugar e na hora errada no exato instante da chacina, ser um dos que disputam uma única vaga de emprego, não conseguir atendimento no posto de saúde e ver seu filho com olhar de desamparo porque ladrões invadiram a escola e levaram toda a merenda.  



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