SOROCABA E REGIÃO

Caderno Mix: superação que vem do esporte


No esporte, o objetivo maior de um competidor pode ser o de encaixar a bola na cesta ou mandá-la para dentro do gol. De chegar em primeiro na pista -- a pé ou acelerando um veículo a mais de 300km/h. Ser o melhor com um dardo, uma raquete, um taco ou um arco nas mãos. Pode ser até o de derrubar o adversário com seus golpes. Mas, em alguns casos, a maior das conquistas que a atividade esportiva proporciona é comemorada antes mesmo do cronômetro disparar -- e não perde a validade como uma medalha ou um troféu: é algo que será levado consigo para sempre como um elemento de transformação da própria vida.

Um desses casos é o da lutadora amadora de kickboxing Fanny Cardoso Soares, de 25 anos, que há duas temporadas sofria de uma depressão que a fez engordar 65kg. No auge da doença, chegou a pesar 130kg. Foi quando a votorantinense viu no ringue a oportunidade de mudar a sua história, recuperar a sua saúde e, como resultado, hoje participa até de competições internacionais. Ao completar 24 meses de uma carreira antes impensável, está pesando 73kg. "A prática esportiva me ajudou físico e psicologicamente. Me alimentava compulsivamente, independentemente das emoções: quando estava triste, ou feliz, ou com raiva. Vivia trancada no quarto e dele saía somente para trabalhar. Hoje sou mais sociável, tenho uma boa saúde e levo uma vida normal", comemora, atribuindo ao esporte uma parte importante da solução da obesidade e da cura da depressão.

Fanny divide com o técnico, Luciano Santos, dono da academia onde treina, os méritos das conquistas. A primeira delas foi a superação da vergonha. "Esse é o primeiro obstáculo. Quando estão acima do peso, as pessoas relutam em buscar uma atividade física, pelo medo da reprovação. Se ela tivesse esse pensamento, tudo estaria perdido", observa o profissional. Ele se viu diante de um grande desafio quando recebeu a garota pela primeira vez, mas se viu estimulado pela progressão dos resultados. "Não usamos nenhum remédio, nenhum termogênico. Foram treinos dia sim, dia não, e depois diários", comenta o treinador.

A partir da boa resposta da lutadora nos treinos, que eram cada vez mais intensos, Fanny e Luciano decidiram, em consenso, que seria possível seguir uma carreira de competição. E o mundo das lutas abriu um horizonte até então inalcançável para a votorantinense: o de expandir as fronteiras do próprio País ao mesmo tempo que superava seus próprios limites. "Confesso que de início não tinha essa intenção, até recusei uma primeira participação no Campeonato Paulista, por vergonha, pois não sabia como iria me sair. Mas pude superar esse receio e fazer minha estreia em 2016. As pessoas ficam felizes por minhas conquistas e isso me faz bem", conta a atleta -- que iniciou a galeria de conquistas com as medalhas de participação em torneios regionais.

Os resultados seguintes foram duas medalhas de ouro no Brasileiro Amador -- que a classificaram para um Pan-Americano, em Cancun, no México, no ano passado, e de onde retornou com uma prata e outro bronze. O próximo degrau será profissionalizar-se na modalidade. "No esporte amador, o auge é a participação no Mundial, que será na Hungria. O caminho começou pelo Paulista, realizado em Itu, no qual consegui medalha de bronze e o índice necessário para participar de um novo Brasileiro. Tendo cumprido isso, competir entre os profissionais seria um novo e grande sonho."

Missão Tóquio

Um acidente numa metalúrgica, há 14 anos, mudou a vida de Christian Divino Porteiro, hoje com 39 anos. Não pelas questões de mobilidade relacionadas à perda de sua perna direita -- até porque ele afirma não dar bola para elas. E sim porque, involuntariamente, o ocorrido lhe encaminhou para uma vitoriosa carreira no parahalterofilismo (halterofilismo paralímpico). Nessa modalidade, podem competir atletas amputados, das classes de paralisia cerebral, de lesões na medula espinhal e les autres (outras deficiências, como nanismo e esclerose múltipla) com limitações mínimas.

Nas competições desse esporte, são dadas três chances para que o atleta erga um peso específico -- dinâmica com a qual ele teve contato pela primeira vez em uma academia. "Em 2006 necessitei buscar uma academia de musculação e nessa ocasião conheci uma equipe de supino. Peguei gosto pela modalidade, quis participar e acabei iniciando no mundo do esporte de competição", relembra. A saga nas competições, iniciada em 2007, lhe rendeu o tricampeonato sul-americano entre 2008 e 2010, ainda como amador.

Profissionalizado em 2011, Christian sempre perseguiu os índices olímpicos. Até agora, participou de um evento-teste dos Jogos Paralímpicos do Rio-2016 e integrou a seleção brasileira em duas oportunidades. "Fiquei fora da Rio-2016 por um quilo", lamenta o atleta de 120kg e que compete na categoria acima de 107kg. A próxima missão é estar nos Jogos Paralímpicos de Tóquio-2020, objetivo que divide com um grupo de 28 atletas de nível avançado da Associação Esportiva de Apoio ao Atleta, Paratletas e Esportistas de Itu e Região (Aesa). Eles treinam no Centro de Referência em Desenvolvimento de Itu, sob o comando do técnico Valdecir Lopes.

A trajetória até a capital japonesa tem três requisitos: possuir um recorde nacional, estar entre os oito do mundo e alcançar 70% do recorde mundial. Entre os atletas do Brasil, a disputa se dá pela participação nas etapas (três regionais e uma nacional) que compõem os Circuitos Caixa, o campeonato brasileiro da modalidade. Os melhores do planeta serão conhecidos no Mundial, que será no México, com consequentes índices para a sonhada Paralimpíada. A maior dificuldade, segundo Christian, está no terceiro item: levantar 232,5kg -- já que a maior marca conseguida na sua categoria, até hoje, foi 310kg.

A tarefa é árdua e ainda carrega consigo as dificuldades da falta de apoio a atletas individuais na região. Mas, independemente do que acontecer até 2020, o sorocabano afirma que já tem muito a agradecer. "O esporte me trouxe coisas que não almejava. Minha visão de vida mudou, conheço todos os estados do País e viajei para Argentina, Uruguai e Hungria -- além de receber a oportunidade de defender as cores do Brasil em uma seleção", finaliza.


Basquete ajuda jovem atleta na recuperação de cirurgia cardíaca

Estar em quadra no maior campeonato de basquete do País, o Novo Basquete Brasil (NBB), é capaz de provocar as maiores emoções para os jovens atletas. Porém, para o pivô Gabriel Mendes, de 20 anos, a segunda partida que fez pela Liga Sorocabana de Basquete (LSB/Uniso) na edição 2016 do torneio, contra o Rio Claro, significou um sinal de alerta: um mal-estar, iniciado já no aquecimento, e que permaneceu depois que o árbitro apitou o início do jogo.

"Percebi que tinha ficado cansado já nos movimentos mais simples. Eu me senti estranho, ofegante. Mas não dei muita importância, achei que estava nervoso", relata. Como o incômodo permaneceu, a comissão técnica da equipe o retirou do jogo e, no dia seguinte, o encaminhou para exames -- que acusaram a possibilidade de uma arritmia cardíaca. Confirmada a suspeita por eletrocardiogramas, três meses depois, foi detectada a necessidade de uma cirurgia. "Em um primeiro momento foi difícil acreditar, pois sempre pratiquei esportes e nunca havia desconfiado de qualquer problema semelhante", relembra o pivô, que foi operado em maio do ano passado.

Se o período de recuperação foi relativamente curto -- embora tenha recebido prescrição de medicamentos por seis meses, em 60 dias já estava liberado para retomar os treinos --, os dias que antecederam à ablação por cateterismo foram de preocupação. "Embora tenha sido algo bastante simples, estive muito preocupado sobre o que faria se não pudesse fazer a operação, ou se o médico me proibisse de atuar. Não queria encerrar a carreira. Também por isso me doía muito acompanhar os jogos da LSB de fora da quadra, enquanto aguardava o tratamento, e sentir que estava fazendo falta. Que eu tinha de estar lá. Eu queria voltar o mais rápido possível", recorda-se o jogador, que vive em Itapevi com a família.

Na época, o ocorrido causou surpresa e preocupação a todos na equipe. O técnico e presidente Rinaldo Rodrigues conta que, ao lado dos fisioterapeutas Mateus Rossi e Rafael Sorio, todos no time buscaram dar apoio a Gabriel e acompanharam o diagnóstico, a cirurgia e o tratamento. "O nosso pensamento foi de que ali tinha um ser humano, e não só um jogador da equipe", comenta Rinaldo. Recuperado, o jovem voltou às quadras pela base da LSB, em julho do ano passado. Depois, passou alguns meses no Ginástico, de Minas Gerais -- retornando a Sorocaba para defender a equipe no Paulista Sub-22.

Futuro

Como todo jovem valor do basquete, Gabriel sonha com a NBA, a liga de basquete mais famosa do mundo. Mas a primeira missão a cumprir está em si mesmo: recuperar o desempenho de antes da cirurgia. "Eu ainda não consegui voltar a atuar no meu melhor, em termos físicos e táticos. Mas evoluí bastante. Creio que nesta nova passagem por Sorocaba eu possa retomar essas condições para ajudar esta equipe. Sou muito grato à LSB pelo tanto que me ajudaram", agradece.


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