ARTIGOS

O caso da menina que dormia


Edgard Steffen
 
Esteja sempre por perto!

(Lema de campanha contra acidentes na infância)



Do São Severino chamaram-me a ver menina de cinco anos em coma. Fora trazida pelo Pronto-Socorro Municipal e internada sem qualquer informação. No relatório de enfermagem nem febre nem vômitos, diarreia, tosse ou qualquer sintoma que nos fornecesse pistas para o diagnóstico. Nenhum outro sinal que levantasse alguma hipótese. O coração batia regularmente, pressão sanguínea normal para a idade, pulmões livres, abdome flácido sem resistências ou tumorações palpáveis. Não apresentava rigidez de nuca ou sinais que me conduzissem à suspeita de meningite ou encefalite. Reflexos presentes e simétricos afastavam a possibilidade de lesão traumática localizada em área encefálica

Para não dizer que nada apresentava, no exame clínico encontrei ferimento recente por abrasão num dos joelhos. Em linguagem leiga, simples "ralado". O ferimento, apesar da superficialidade, poderia nos levar à hipótese de tétano. A menina poderia fazer parte da coorte de crianças não vacinadas, achado comum naqueles anos. A hipótese não cabia. Tétano é sempre acompanhado por contrações musculares. O plácido sono da garota não existiria num caso de tétano.

Não havia nem neurologista nem eletroencefalografia na cidade. UTI e tomografia computadorizada também não existiam. Os poucos exames subsidiários possíveis estavam normais. Lembro-me de ter dosado a glicemia e o cálcio sanguíneo. Também a radiografia de crânio não revelou fraturas.

A hipótese mais plausível seria intoxicação por substância depressora do sistema nervoso central. A menina dormia profunda e calmamente. Restou-nos mantê-la sob observação -- aspirador e oxigênio prontos para uso -- em hidratação endovenosa, até que pudéssemos entrevistar a mãe. Sustento da família, a mãe trabalhava na cozinha de restaurante, desde muito cedo até quase dez da noite. Vivia sozinha com o casal de gêmeos. Deixava tudo pronto e, mediante pagamento, uma vizinha dava as refeições e levava a dupla à creche. Quem chamara o Pronto-Socorro fora essa vizinha que estranhou quando, ao entrar na pequena casa para esquentar o jantar, apenas o menino assistia desenhos animados na TV. A menina jazia sobre a cama da mãe.

À noite, conseguimos falar com a genitora. Sabatinamos sobre a presença de drogas em sua casa. Jurou de pés juntos que não possuía remédio algum ou drogas em seu domicílio.

Na manhã do dia seguinte a menina continuava na mesma. Voltamos a insistir sobre a possibilidade dela ter ingerido algum medicamento. Nossa insistência foi tanta que a mãe chegou a irritar-se. Surtiu efeito porque, à tarde, pediu nossa presença e nos mostrou um tubo de barbitúricos (calmante) quase vazio. Pressionada por mim, por sua vez pressionara a escola, a vizinha e o filho. No irmão a chave do mistério.

Contou que a irmã caíra na creche e que, quando chegaram na casa, disse que o joelho estava doendo. Confortou a irmãzinha - "Sei onde a mamãe guarda o remédio para dor de cabeça!". Colocou uma cadeira sobre a mesa, subiu nela e alcançou uma lata que estava em cima do guarda-comida. Dentro dela, o calmante que, dois anos antes, o médico prescrevera para que aquela mulher vencesse o estresse sentido quando o marido a abandonara. A jovem mãe partiu para a luta e o envolvimento com o trabalho fez mais efeito que o remédio. Guardou o calmante onde pensou estivesse fora de alcance. Esqueceu-se dele. O menino, não.

A história acabou bem. Acordando aos poucos, a garota nem chegou a se assustar com o ambiente estranho do hospital. Para os envolvidos no caso, ficou bom exemplo do respeito ao lema das campanhas contra acidentes na infância: "Esteja sempre por perto!".

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com


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