ARTIGOS

Quadrilhas


Aldo Vannucchi


Tudo começou como paródia dos torneios realizados por cavaleiros medievais. Em vez de lanças, alguns cavalheiros, não mais cavaleiros, armaram-se de canas para uma competição de brincadeira. E com eram quatro, esse jogo se chamou de quadrilha. Com o tempo, a palavra se generalizou para qualquer grupo de pessoas, mas, entre nós, prevaleceram dois sentidos: a dança junina e o bando de malfeitores, bandidos e ladrões.

Engana-se quem me imagina pronto para disparar, aqui, contra as nossas quadrilhas da economia e da política. O assunto já cansou. Dá revolta e envergonha o País. Hoje, quero amenidades. Fico, apenas, numa conversa sobre o número quatro, berço léxico de toda quadrilha. E não foi o quatro o algarismo supercelebrado por Temer, no 4 a 3 do TSE?

A história consagrou um mestre dos números -- Pitágoras. Ele ensinava que eles governam o mundo e a vida. Todos os fenômenos se compõem de quatro elementos: ar, água, terra e fogo. Ele só aceitava discípulos depois que proferissem, em sessão solene, o que se consagrou como juramento pitagórico : "Juro por Aquele que à nossa alma confiou o quaternário, origem da natureza eterna".

Esse destaque definido pelo filósofo grego ao número quatro, foi confirmado pela mística oriental, porque o número quatro lembra a figura plana de um quadrado, imagem do mundo físico para os antigos. Na cultura chinesa, ganha ampla relevância o dragão, animal símbolo da Sabedoria divina, composto de quatro partes: corpo de serpente, garras de águia, chifres de corsa e bigodes de carpa. A Caaba, templo máximo dos muçulmanos, tem a forma exata de um quadrado. E se tomarmos a Bíblia sagrada, veremos que, do primeiro ao último livro, há referências especiais ao número quatro. No paraíso do Gênesis, está escrito que lá "nascia um rio que regava o jardim, e saindo dali se dividia, formando quatro rios", e no Apocalipse aparecem quatro terríveis cavaleiros: a Fome, a Guerra, a Peste e a Morte.

Em nossos tempos, tudo isso pode parecer fantasias, mas o quatro continua nos quatro pontos cardeais, nas estações do ano, nas quatro fases da lua, nas operações aritméticas (adição, subtração, multiplicação, divisão), nos quatro naipes do baralho e até nas quatro folhas do trevo da sorte. Por sinal que no Japão o quatro é visto como o número do azar, porque o seu som se parece com a palavra "morte", e assim ele é evitado em celular, andar de hospital e placa de carro.

Por último, não se fala, às vezes, que fulano fez o diabo a quatro, para dizer que aprontou mil e um acidentes de toda a espécie? Trata-se de expressão proveniente do teatro medieval, em que era constante a presença do diabo. Havia diabruras mais leves, com participação de um só diabo, às vezes dois. Quando, porém, se queriam duabruas maiores, entravam quatro diabos e aí era só barulho, confusão e terror. Era uma quadrilha fatídica.

Seria muito bom se, nestes dias de quadrilhas juninas, as nossas quadrilhas políticas ganhassem o xilindró. Elas já fizeram o diabo a quatro, mas há fogos estourando contra elas e muita fogueira delatória pode ainda queimá-las, para a salvação do País.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretora Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br


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