OUTRO OLHAR

Coisa de bicho (parte 1)

Numa floresta muito distante, nos confins do fim de um mundo caótico, todos os bichos estão em polvorosa. Há uma disputa entre o leão e o tigre pelo comando dos animais. Isso é suficiente para desencadear um clima de guerra na imensidão verde que se estende a perder de vista.  O leão, que governa a floresta há muitos anos, tem sua legitimidade contestada e sua honra tem sido enxovalhada por denúncias de corrupção. E ele tem muitos inimigos. O animal que lidera o grupo dos adversários é o tigre, que quer tomar o lugar do leão. Mas também pesam contra o tigre acusações dos piores crimes jamais vistos nessas veredas.  A floresta está dividida numa disputa insana. O risco de uma batalha mortífera entre os animais é iminente. Há o grupo que oferece apoio irrestrito ao leão, mas outra turma se alinha ao tigre também de forma obstinada. As forças são equivalentes e compõem um equilíbrio regido pela tensão.  A coruja lidera o grupo de apoio ao leão em troca de segurança para a sua ninhada: enquanto ela estiver com o rei dos animais, amparada por ele, ninguém mexe com as suas corujinhas. Do outro lado, o grupo do tigre também tem um líder na figura do macaco. A garantia do fornecimento de bananas diárias, prometida pelo tigre, é o segredo da motivação que leva o macaco a arregimentar cada vez maior número de simpatizantes em favor de uma causa tão nobre.  O leão nega todas as denúncias. O tigre explica que os crimes que lhe são atribuídos não passam de invenções e fantasias. Os dois poderosos animais têm em comum o discurso de combate à corrupção. E prometem defender a democracia como sistema de governo em todos os cantos da imensa floresta.  Nesse clima, a coruja e o macaco têm trabalhado muito. A coruja procurou a cutia, a paca, a capivara, a onça, a jaguatirica, o tamanduá, o tatu. Nas conversas com os animais, pediu que todos se enfileirassem na corrente de sustentação do rei dos animais. Como recompensa teriam proteção e comida, duas necessidades fundamentais naquele universo verde marcado por pragas, ameaçado pelas motosserras e cheios de armadilhas de todo tipo. Entre os animais assediados pela coruja, o apoio ao leão é quase unânime. O único caso de deserção foi o da capivara, que se bandeou para o lado do tigre porque recebeu como promessa, além de proteção e comida, a vantagem de ter um cargo importante num futuro governo de união geral da floresta. A mesma manobra de compra de apoio também é feita pela turma do tigre e o macaco é o capitão dessa empreitada. Outros bichos se mantêm à margem das disputas. Em lugar de protagonistas, são coadjuvantes ou menos do que isso. Entre esses estão as aves (tucanos, papagaios, águias, sanhaços, macucos, feiticeiras, papa-moscas), as serpentes (jiboias, corais, jararacas), além dos sapos, rãs, pererecas, peixes. Limitam-se a dar opiniões. No conjunto, estão divididos entre apoiar o leão, de um lado, ou o tigre, de outro. O papagaio não tem dúvida de que um e outro são a representação de uma única identidade: -- São criaturas iguais, embora sejam de espécies diferentes. Alguém propõe um duelo entre os dois poderosos da floresta. Mas a ideia é descartada por falta de respaldo do sentido de justiça. O entendimento geral é de que alguma solução tem que ser encontrada pelo bem de todos. A vida na floresta se tornou insuportável com a crise de poder. Nos momentos em que o tigre e o leão movimentam as peças de um xadrez ameaçador, que pode levar a floresta à guerra, muitos animais morrem de fome, de doenças, de abandono, e ninguém faz nada. Para esses líderes, o que vale é a disputa pelo comando do reino animal. E mais nada. As coisas se agravam com a ameaça das motosserras, que derrubam árvores, devastam vastas áreas da floresta e massacram os animais. Nessas áreas surgem pastos e exploração de jazidas minerais. E as motosserras recebem a aprovação de animais como o leão e o tigre. Dizem que isso acontece porque eles recebem favores e outros benefícios, embora neguem. Para quem acompanha essas agressões contra a natureza, o medo é de que a floresta seja extinta pela guerra ou pela ação das motosserras e toda a condição de vida deixe de existir.



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