ARTIGOS

Estranhos


José Milton Castan Jr.

Aguardando no semáforo, ela nem se dá conta do Jeep vermelho parado ao seu lado esquerdo. Sinal aberto e logo arrancam juntos, o Jeep acelera e numa manobra brusca cruza perigosamente sua frente, diminui a velocidade fazendo com que ela também diminua. O Jeep vermelho diminui mais ainda e aponta para a entrada do estacionamento da padaria. Ela fica mais irritada pois também iria entrar no mesmo estacionamento. Enxerga um braço tatuado acionar o botão da cancela, que demora subir. Certamente o motorista apressadinho era um homem. Pensa em dar uma buzinada, resiste. Já no estacionamento ela sai o mais rápido possível do carro e segue com pressa em direção à porta de entrada, no entanto, o rapaz do Jeep vermelho num passo mais largo chega antes dela para pegar a comanda de entrada da padaria. Não se olham.

Havia sido um dia cheio para ela, e na audiência seu desempenho foi notável. Renata sabia de sua capacidade como advogada, e realizava-se assim. No entanto, se no campo profissional tudo corria muito bem, no afetivo as coisas eram bem diferentes, e seu casamento encontrava-se desmoronando. Há alguns anos os projetos entre ela e o marido eram comuns. Atualmente o que têm de mais comum é morarem juntos.

Já dentro da padaria ela segue para a fila do pão e fica bem atrás do rapaz do Jeep vermelho, que de alguma forma lhe parece familiar, e apesar de péssimo motorista, é bem atraente. Percebe que ele pede três pãezinhos: dois filãozinhos e um rústico. Logo ela também faz o seu pedido. O rapaz segue para a gôndola de frios, pega uma bandeja de presunto e outra de queijo. Ela acha graça pois coincidentemente havia feito o mesmo pedido de dois filãozinhos e um rústico, e agora também iria pegar uma bandeja de cada frio. Vai para a fila do caixa, e eis que, finalmente o rapaz tem uma atitude cordial, pois lhe cede a frente.

Já no carro e seguindo para seu apartamento, volta a pensar no marido e como estavam distantes. Entristece. Chora. Ao chegar no prédio Renata aciona o portão automático, entra na garagem e estaciona em sua vaga. Ela não se dá conta, mas logo em seguida o rapaz do Jeep vermelho estaciona exatamente na vaga ao lado da sua. Ela desce do carro e segue para o elevador com a sacola plástica na mão e bolsa no ombro. Dentro do elevador a porta ia se fechando quando um braço tatuado segura a porta e o rapaz do Jeep vermelho entra.

Nada falam. Ele aperta o botão do 5º andar, o mesmo que ela havia acabado de acionar. Não se olham. Ele de frente para a porta do elevador segurando também uma sacola plástica. O ringir do elevador subindo é o único que se ouve. No 5º andar o rapaz desce e ela em seguida. Seguem pelo mesmo corredor. O rapaz muda a sacola de mão, pega as chaves no bolso, e em frente ao apartamento 521 abre a porta e entra. Renata acelera suas passadas e segura a porta antes que se feche.

--- Oi...boa noite! Nem tinha percebido que era você - Renata fala num tom monocórdico.

--- Nem eu! - ele devolve com a mesma indiferença.

--- Que sacola é essa? - Renata pergunta apontando para a sacola com os pães.

--- Hoje era minha vez de trazer o pão e os frios! - ele responde meio exaltado estendendo o braço tatuado.

Neste instante ela reconhece que o rapaz do Jeep vermelho desde o semáforo, na padaria, no elevador e agora na porta de sua casa era seu próprio marido.

""Marido??"" pensou. Nem o reconhecia! Renata entende então que já não mais eram marido e mulher, mas completos estranhos que moravam juntos.

Faltava apenas a partilha dos bens.

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br


OCULTAR COMENTÁRIOS
comments powered by Disqus