OUTRO OLHAR

O homem da mala


Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Numa noite tropical e de iluminação amarelecida, um homem de terno segura uma mala e se esgueira pela calçada em direção a um ponto de táxi. Desconfiado, ele olha para trás, como se temesse ser seguido ou filmado, e se perde nas sombras.
Parece uma introdução daqueles filmes B tão cultuados por cinéfilos mundo afora. A diferença é que não é ficção. É uma cena real, repetida à exaustão na tevê e nas redes socias. E ganha destaque extraordinário nas batalhas políticas que paralisam o Brasil.
Também parece espionagem. E cabe perguntar: por que o crime tem fixação em malas? Enigma.
As notícias sobre o homem de terno dão conta que no interior da mala havia R$ 500 mil em dinheiro de propina. As notas vinham de algum lugar, pousaram em outro ponto para troca de mãos e agora se deslocavam para outras bandas. E pensar que nos pontos de origem, parada e destino havia sempre alguém, entre emissores e receptores.
O dinheiro fez uma viagem misteriosa e não sabida. O flagrante captado pela câmera é suficiente para indicar especulações obscuras. O desafio era saber a origem e o destino. O mistério só poderia ser esclarecido se houvesse resposta para os dois extremos e o ponto intermediário da estranha viagem.
Agora, imagine o perigo de o homem da mala ser assaltado. Mas nada disso aconteceu. Certamente ele tinha armado esquema de segurança para garantir uma viagem segura ao destino programado. Nada de escolta armada. Nada que denunciasse o seu deslocamento como parte de uma grande operação negociada por poderosos. Ou talvez, como um delinquente flagrado pelas câmeras, ele também não tivesse medo de outro parceiro de atividade.
De resto, malas não são confiáveis. O uso delas, numa situação como essa, torna-se obrigatório porque não havia outro jeito de acondicionar e transportar tanto dinheiro. O volume de pacotes de notas não cabia em nenhum bolso, em nenhuma sacola, em nenhum estojo.Tinha que ser uma mala. O problema é quando, além de malas, esse objeto de uso dos viajantes é destinado a transportar corpos.
A mala foi peça de destaque num dos crimes mais famosos da literatura criminal no Brasil: em 1928, Giusepe Pistone matou a mulher, Maria Fea, escondeu o corpo numa mala e tentou embarcá-lo para a Europa. Segundo os historiadores, a mala foi içada a bordo de um navio atracado no porto de Santos. No instante em que foi descarregada a bordo, o impacto no chão abriu e uma fresta se abriu na parte inferior. Um mau cheiro indicou coisa errada. A mala foi aberta e o cadáver no interior dela causou espanto geral. O autor do homicídio foi identificado e preso.
Outro história célebre, ocorrida em 2012, também foi marcada pelo uso de malas: a bacharel em direito Elize Matsunaga foi acusada de matar o marido, Marcos Kitano Matsunaga. O júri popular a condenou a 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão em regime fechado. Num dos aspectos macabros descrito pela acusação, Elise esquartejou o corpo do marido e o escondeu em malas. Uma câmera captou a cena em que ela entra num elevador do edifício onde morava com as malas que continham partes do cadáver.
Impossível não recordar esses crimes a cada momento em que são exibidas as cenas do homem de terno que foge pela calçada numa noite perdida. Em silêncio, na solidão de um destino, ele se enquadra no clássico exemplo das aparências que enganam. Ninguém podia saber que ele levava alta quantia em dinheiro na mala. Ninguém jamais saberia disso, se já não estivesse sendo investigado e filmado.
Aeroportos e terminais rodoviários são lugares abundantes em pessoas com malas. De todos os tipos e cores. As malas abrigam roupas, calçados, objetos, produtos diversos. Basta uma parada num corredor ou saguão para assistir a um desfile de malas com destino a milhares de direções em todo o País e no exterior.
Não há como resistir: a curiosidade especula qual dessas malas, no frenético movimento dos aeroportos e rodoviárias, pode conter dinheiro de corrupção ou, até mesmo, um corpo esquartejado.
Mais do que em outros acontecimentos históricos, agora, no turbilhão da crise, a mala é elevada à condição de obra monumental e decisiva para os destinos do Brasil.



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