OUTRO OLHAR

Escolhas atropeladas



Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Tempos sombrios, se forem considerados os estragos que provocam, habitualmente derrubam mitos. Um dos efeitos desse período é a perda da força de aforismos que há tempos são ventilados como verdades e entram no inconsciente coletivo como elementos de autoajuda, esperança, ilusão. E um desses mitos é o de que a vida é feita de escolhas.

Com o perdão dos que discordam, essa afirmação é um recibo de autoengano. E isso acontece nos planos biológico, físico, social. A ideia de escolha é impossível para o indivíduo que adquire as características físicas desde a concepção. E após o nascimento, na esfera da vida em sociedade, a definição de escolha perde o sentido frente à identidade dos grupos e classes sociais.

Ninguém escolhe ser pobre ou ter limitações físicas, mentais ou de qualificações numa sociedade marcada pela competição, endeusamento dos fortes e exclusão dos fracos. Ninguém escolhe a dor, a tristeza ou a angústia. Mesmo assim, essas aflições fazem parte do sofrimento humano, surpreendem a qualquer momento e nem todos conseguem escapar delas.

Em contrapartida, a condição do homem é ser protagonista, vencedor, símbolo de perfeição. Esse aspecto foi abordado na semana passada em palestra do professor e jornalista Clóvis de Barros Filho em Sorocaba. Ele lembrou que o protagonismo humano se constitui de duas situações: na primeira, o homem pratica autonomia e controle com o planejamento das ações para alcançar as metas propostas; na segunda, ele depara com os elementos da surpresa, do imprevisível, do imponderável.

E as duas situações têm importância que se equivalem, explica Barros Filho. O desafio é saber lidar com a segunda parte de forma amadurecida, Mas a transposição do imaginado obstáculo também se dá com maior ou menor grau de dificuldade dependendo do peso da interferência causada.

A viagem a um determinado ponto pode ser interrompida por um acidente na estrada e representar um atraso administrável. Mas a interdição do local pode se estender por tempo indefinido e nesse caso o atraso se converte em prejuízo total. E o viajante, em sã consciência, não teria escolhido um trajeto problemático se soubesse disso com antecipação.

Numa atitude positivista, o homem tende a mirar os gênios e tomá-los como modelos a seguir e imitar. Dentro do espírito de sua palestra de tom motivacional, Barros Filho citou como exemplos de perfeição o pintor catalão Salvador Dalí, o maestro João Carlos Martins, o nadador César Cielo e o campeão olímpico Thiago Braz. Excelentes modelos de inspiração. Mas a diferença é que artistas e atletas dessa categoria são líderes nos seus campos de domínio e, nessa condição, representam exceções no conjunto da sociedade.

Olhando ao redor ou para si mesmo, o homem se depara com trabalhadores competentes que perdem o emprego, com pessoas qualificadas que não encontram recolocação no mercado de trabalho, com estudantes que não conseguem aprender e professores que têm dificuldade de ensinar por causa de tiroteios em favelas no Rio. E ninguém escolhe esse tipo de vida.

Dia desses, numa mesa de bar, um homem deprimido curtia uma tristeza incrível porque tinha sido abandonado pela mulher que amava. Os amigos tentaram consolá-lo, em vão. Restou-lhe ouvir as baladas de Elton John e Adele. Quando enjoou de ouvir as canções, ele foi para casa e escreveu um livro para exorcizar a sua dor. Se pudesse, teria driblado a amargura com outra atividade.

Assim se esfacelam as escolhas, o que vale também para a democracia. Nessa forma de governo, eleitores votam nos candidatos aos cargos públicos com a esperança de que eles cumpram as promessas de trabalho e sejam honestos. E muitos escolhidos não fazem nem uma coisa nem outra: traem os representados, enriquecem indevidamente, acreditam na impunidade como prêmio e na memória curta como redenção.

Se escolhas individuais são atropeladas e não servem como justificativas para os fracassos, na plataforma coletiva a situação se agrava e vira cenário de guerra. Ninguém escolhe o atraso, a corrupção, a bandidagem. A vida não é feita de escolhas, mas de acidentes de percurso. As vítimas compõem dois grupos: os que suportam e superam a dor e os que são aniquilados por ela.



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