OUTRO OLHAR

O grande desastre


Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Impressionante como a fragilidade humana fica exposta em grau máximo diante dos grandes desastres: a morte entra em rota de colisão com o instinto de sobrevivência e instaura-se uma forma de duelo entre a vida e todo o conjunto de ameaças ao redor. Numa transposição do plano físico para a esfera pública, foi exatamente esse o fenômeno que anestesiou o Brasil na noite de 17 de maio com as notícias que provocaram estragos comparados a um terremoto na política brasileira.
Assim como nos desastres que envolvem mortos e feridos, a notícia detonada como furo bombástico causa uma espécie de atordoamento coletivo. Equivalentes às vítimas, os nomes atingidos pelas denúncias se enquadram na categoria de mortos ou feridos de acordo com a gravidade dos indícios de crimes cometidos. Simultaneamente, uma legião de cidadãos pelo País afora estão perplexos com o que veem, leem, ouvem, escrevem, e essa reação se converte em sentimento público de indignação.
O atordoamento é refletido no esforço de jornalistas que, atropelados pela urgência, tentam explicar e interpretar os acontecimentos. E numa situação tensa em que nem tudo está dito, informado ou compreendido. O risco de erro é iminente. Nos primeiros momentos, diante da obrigação de acrescentar informações, repete-se o que já foi dito. E as análises, sem os subsídios necessários, resvalam para o desfiladeiro do achismo. Alguns enxergam suposições coerentes, mas outros detectam especulações e teorias da conspiração.
Nessa fase inicial do choque de audiência ainda não existem áudios ou imagens, recursos obrigatórios como sustentação das denúncias, e toda a indústria de massa se vale de uma suposição de credibilidade com o público. A notícia é estarrecedora, requer comprovação. Provas obrigatórias se tornam imprescindíveis nessa hora.
Joga-se com o tempo. Enquanto as horas avançam, as perguntas se multiplicam: existem provas? elas aparecerão? o que é verdade e o que pode ser mentira no que está acontecendo? por que jogam mais areia no ventilador dentro do modelo de delações premiadas? qual será o benefício que vai privilegiar os delatores? o que acontecerá com os acusados? e, como dizem que as instituições funcionam, como elas se comportarão nesse agravamento da crise?
Num momento em que ainda não há respostas, o desafio de fazer interpretações em meio à falta de detalhes é uma tarefa atribuída aos especialistas que, nessas condições, surgem de vários cantos em passes de mágica. E, diante dos fatos, o risco de erro é total. Aparecem dados sobre entrega de pacotes de dinheiro em malas, encontros na calada da noite, negociações em restaurantes e salas de aeroportos. Falam que muita coisa foi filmada com tecnologia de rastreamento. As técnicas de espionagem usadas causariam inveja ao agente 007.
Tão impactante quanto a gravidade das denúncias, causa horror a menção a milhões de dólares para cá, outros milhões para lá, numa inesgotável montanha de dinheiro vivo nas mãos de criminosos do colarinho branco. É instantâneo o raciocínio de que essas notas foram desviadas de escolas, hospitais, assistência social, para serem destinadas a corruptos.
As imagens de malas e muito dinheiro, que logo depois são mostradas, parecem extraídas de filmes de suspense. Atraem tanto a atenção que superam a audiência das telenovelas. O clássico Terra em transe, de Glauber Rocha, que retrata uma crise política, parece poético demais se comparado aos padrões selvagens da corrupção na atualidade.
Nessa ciranda de caos, a fragilidade humana diante do desastre também se reflete nas criaturas que têm a responsabilidade de encontrar soluções para a crise. Em vez de se entenderem sobre atitudes a serem tomadas, batem cabeças. A operação mais ditada é a do "salve-se quem puder". Não se sabe quem mente ou quem diz a verdade. E qual verdade? A desconfiança é geral. No mar de dúvida e incerteza, ninguém sabe como será o amanhã.
E, se na cúpula da pirâmide o clima é de terror, imagine a base e os que fazem parte dela. Para a maioria, restam as eternas ameaças traduzidas em mais desemprego, complicações com saúde e educação, desamparo em todas as outras necessidades. No rastro do desastre, estas são as vítimas em situação de maior gravidade. De onde virá o socorro?



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