ECONOMIA

Incertezas voltam a rondar a economia brasileira


O que vai acontecer agora? Essa é a indagação que move os rumos econômicos do País após as denúncias envolvendo o presidente Michel Temer. "Em economia, expectativa é tudo", resume o economista Lincoln Diogo Lima, coordenador da pesquisa mensal de preços da cesta básica da Universidade de Sorocaba (Uniso). "Haverá um período de turbulência, um aumento da desconfiança", emenda Marcos Antonio Canhada, docente da mesma universidade. "Ninguém vai comprar um bem, fazer investimentos se não tiver o mínimo de expectativa que no futuro conseguirá honrar o compromisso que assumiu", complementa o delegado do Conselho Regional de Economia e também professor, Sidney Benedito de Oliveira.

As análises sobre o que acontecerá com o Brasil no campo econômico ainda são superficiais, até porque os fatos estão acontecendo. Porém, é consenso entre especialistas que o desenvolvimento econômico será bastante afetado pelos indícios e acusações de problemas graves envolvendo o presidente da República. Prova disso foi o impacto imediato na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), na manhã de ontem, que chegou a ter os negócios interrompidos pelo circuit breaker. E a situação acontece exatamente no momento em que o cenário econômico, ainda que timidamente, esboçava alguma reação -- a partir da possibilidade de aprovação das reformas, queda das taxas de juros e da inflação.

"Depois de uma recessão profunda vínhamos num processo de retomada, ainda que lenta por conta de uma certa desconfiança pela Lava Jato e o pouco tempo de governo. Agora essas notícias abalam pois, num país presidencialista, envolvem o mandatário, quem está no comando. Para os investimentos de médio e longo prazo, se já havia pé no freio, vão frear um pouco mais", avalia Canhada. Para ele, o tempo de espera para que todos os fatos venham à tona e sejam apurados acabará retardando ainda mais a recuperação econômica. "O otimismo só não é suficiente para a retomada do crescimento econômico. É preciso mais tranquilidade e menos turbulência."

"Essa situação é um desastre para a economia tanto quanto é para a política", avalia Sidney de Oliveira. "Sem entrar no mérito se o proposto para as reformas é melhor ou não, a possibilidade de aprovação sinaliza para o mercado: "olha, as coisa estão andando, vão melhorar". Essa recuperação vinha acontecendo há alguns meses, ainda que não venha sendo perceptível para a sociedade." Oliveira não crê que será dado um passo para trás na retomada do crescimento econômico, mas aposta que, "ao menos" o processo irá estagnar. "O caminho para sair da crise são os investimentos. Mas quem vai investir num país no qual não há confiança, onde ninguém acredita mais em ninguém?", questiona.

Para Lincoln Diogo Lima, ainda que "aos trancos e barrancos e com uma certa instabilidade provocada pelas investigações da Lava Jato", a capacidade de investimento no País se mostrava, até os fatos políticos recentes, em recuperação, principalmente pela retomada de criação de postos de trabalho e crescimento do PIB. "Me parece que, apesar dos fatos, no âmbito econômico há uma consciência de que as medidas tomadas precisam prosseguir", comentou. Na manhã de ontem, em comunicado oficial, o Banco Central do Brasil anunciou que atuaria para manter a plena funcionalidade dos mercados. "Esse monitoramento e atuação têm foco no bom funcionamento dos mercados. Não há relação direta e mecânica com a política monetária, que continuará focada nos seus objetivos tradicionais", finaliza o comunicado.


Para setor industrial, a hora é de lamentar

Para o setor produtivo, o momento é de lamentar mais uma etapa de crise política no País. Na opinião de Erly Domingues de Syllos, diretor da regional Sorocaba do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), toda projeção que se faça nesse momento não passará de especulação. Porém, ele é enfático em dizer que os empresários devem pisar no freio e voltar a engavetar os projetos que começavam a sair do papel encorajados pelos indicativos de recuperação econômica -- e que significariam, além do reaquecimento econômico, novas contratações.

"Acabamos de anunciar que o Estado de São Paulo voltou a contratar depois de mais de dois anos de muita recessão e dificuldades. Tínhamos números que confirmavam que o caos estava chegando ao fim. Neste momento, só temos que lamentar." Erly destaca que a retomada de projetos que ficaram parados por um longo período acontecia não somente na indústria, mas em todo o setor produtivo, inclusive de construção civil, por exemplo. "Estávamos começando a tirar a cabeça fora da água para respirar. Precisamos ver se conseguiremos voltar àquele patamar, inclusive de investidores externos, do setor produtivo, que já estavam novamente de olho no Brasil." 
 



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