SOROCABA E REGIÃO

Educare: como a arquitetura da escola influencia na aprendizagem

As cores das paredes, os materiais usados na construção do prédio e seu formato, a disposição das salas e dos espaços de uma escola, tudo isso pode ajudar no ensino-aprendizagem, mas até os dias de hoje esses recursos são pouco utilizados e de acordo com estudiosos da área, ainda não há efetivamente no Brasil um planejamento arquitetônico na rede pública em que arquitetos e pedagogos pensem juntos em um espaço que favoreça os processos escolares. O que existe é um esforço dos educadores para repensar o ambiente da aula, recorrendo ao ensino no pátio, no quintal da escola, nas ruas, mudando a disposição das cadeiras e tentando tornar o espaço mais coerente com sua proposta pedagógica.

A arquiteta e pesquisadora Dóris K. Kowaltowski, na obra Arquitetura escolar: o projeto do ambiente de ensino, afirma que ambientes dominados pela iluminação artificial, vidros opacos que impedem a visão do exterior, presença de grades de proteção, monotonia de formas, cores e mobiliário, falta de manutenção, excesso de ordem, rigidez na funcionalidade, falta de personalização e impossibilidade de manipulação pelo usuário são considerados desumanos.

"Pensar os espaços tem a ver com a educação que a gente acredita", pontua Sandra Giovina Ponzio Ferreira, mestre em Psicologia da Educação pela USP e gerente de projetos da área da Educação do Instituto Ayrton Senna.

Conforme Sandra, quando a escola muda a arquitetura, ela está mudando sua concepção de educação. "Não pode ser uma alteração no prédio apenas porque é bonito. Já vi serem criados equipamentos excelentes em escolas com diretores de visão tradiocionalista, que não deixavam os alunos usarem para não sujar, não estragar", comenta.

Ainda de acordo com Sandra, pensar na arquitetura escolar significa pensar numa educação com foco no desenvolvimento da criança. "Ela precisa interagir com seus pares e também com o ambiente, para que possa se desenvolver de modo integral", diz.

O português António Nóvoa, um dos pesquisadores de destaque na área da Educação, fala muito sobre a importância de repensar o espaço da escola, lembra Sandra. "Esse espaço, enquanto arquitetura, ainda não é muito planejado em parceria com a parte pedagógica, principalmente nas redes públicas de ensino. As escolas reformam, constroem, fazem modelos, mas ainda é mais do mesmo. Já nas escolas privadas é possível notar algumas que se destacam nesse sentido", diz Sandra, acrescentando que a educação pública no País ainda está longe de aliar ao projeto pedagógico uma arquitetura que favoreça a aprendizagem. No entanto, a especialista observa que, apesar desse contexto, muitos professores têm usado a criatividade para proporcionar aos estudantes a integração e ressignificação de ambientes escolares. "Muitos docentes têm iniciativa, levam os alunos para atividades no pátio, no quintal da escola, na quadra", elogia.

'O arquiteto é um educador'

No livro Currículo, espaço e subjetividade: a arquitectura como programa, de Antonio Viñao Frago e Agustín Escolano, os autores falam que o "currículo oculto" embutido na arquitetura escolar desempenha um importante papel na formação das primeiras estruturas cognitivas dos alunos. "O arquiteto é um educador, e seu ensinamento transmite-se através das formas que ele concebeu e que constituem o entorno da criança, desde a sua mais tenra idade. Da mesma forma, todo educador, se quiser sê-lo, tem de ser arquiteto. De fato, ele sempre o é, tanto se ele decide modificar o espaço escolar, quanto se o deixa tal e qual está dado. O espaço não é neutro. Sempre educa. Resulta daí o interesse pela análise conjunta de ambos os aspectos - o espaço e a educação -, a fim de se considerar suas implicações recíprocas."

Mario Fernando Petrilli do Nascimento, em sua pesquisa de mestrado para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, intitulada Arquitetura para a educação: A contribuição do espaço para a formação do estudante, mostra a relação entre os aspectos pedagógicos do edifício escolar e o seu projeto arquitetônico. A pesquisa, feita em 2012 e disponível para consultas na internet, investiga as origens e a evolução da arquitetura escolar.

Para Mario, a realização desse trabalho evidenciou a necessidade de maior diálogo entre os profissionais da arquitetura e da pedagogia durante a elaboração de projetos escolares, tornando os espaços propostos mais ajustados às exigências educacionais.

Conforme ele, o papel do arquiteto no processo de criação do espaço escolar deve ser o de fornecer as condições físicas necessárias para que a escola seja um lugar de participação, debate e construção de conhecimento, por meio de ambientes que ampliem as possibilidades de interação entre os alunos.

Em seu estudo, Mario aponta que diversos teóricos e educadores ao longo do tempo pensaram no espaço, mas ainda assim poucos são planejados de acordo com a proposta pedagógica específica daquela determinada unidade de ensino. No movimento da Escola Nova (que ganhou força na primeira metade do século 20), esse espaço começou a ser pensado, mas se tornou padronizado e por isso não conseguiu atender demandas específicas da escola, que começam pela região onde ela está inserida.

E é esse contexto que precisa ser analisado pelos pedagogos e demais profissionais que serão envolvidos no processo da educação, como os arquitetos, para pensarem juntos na proposta educativa que a escola irá oferecer e como favorecer isso.

A Fundação de Desenvolvimento da Educação (FDE), órgão ligado ao governo do Estado de São Paulo, publicou vários títulos sobre o tema, mas de acordo com os estudos de Mario, as propostas de prédios escolares ainda engessam os profissionais que atuam na área e apesar de ter especificações, elas são padronizadas e não cumprem o papel de olhar atentamente para o que a unidade escolar necessita. Mas Mario faz uma ressalva. "Os padrões adotados pela FDE, embora de certa forma engessem o trabalho dos arquitetos, têm cumprido sua função de garantir o atendimento a requisitos mínimos ambientais, de articulação entre os espaços, de quantificação e dimensionamento das instalações, entre diversos outros", diz.

A questão da arquitetura escolar também é prevista na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) (9.394/1996), lei federal que regulamenta a educação pública. Na escola almejada pela LDB, todos os espaços existentes no edifício devem visar à formação de pessoas autônomas e solidárias. Para alcançar este objetivo, a LDB sugere que as escolas busquem uma identidade própria, por isso deve existir diálogo entre o arquiteto e o pedagogo, para propor algo novo. Isso, nas escolas públicas é que não tem ocorrido, mesmo 20 anos após a lei.

Ressignificando o espaço escolar

A questão da arquitetura escolar também se faz presente no livro Ensinar a ensinar: Didática para a escola fundamental e média, de Amélia Domingues de Castro e Anna Maria Pessoa de Carvalho. "Muitas vezes rubricamos um espaço e o sacralizamos. Por exemplo, biblioteca é só para emprestar livros ou, eventualmente, dar uma aula de literatura e quase nunca para uma aula de geografia; o laboratório [é para a aula] de química ou ciências; a sala de vídeo fica restrita a essa atividade, e assim por diante. Flexibilizar a noção de espaço físico é reinventar seu uso, pode ser um exercício interessante de criatividade para os professores e de interesse inusitado para os alunos."

É o que tem feito um grande número de professores de Sorocaba e região. Eles estão usando outros espaços escolares, ressignificando e os tornando próprios para suas disciplinas. Tem de tudo: aula no quintal, no pátio, na quadra, no corredor. Criatividade é o que não falta.

O professor André Damázio, por exemplo, conta que dá aulas de Língua Portuguesa na horta da escola. E o que tem a ver? Segundo ele, tudo. E os alunos do 8º ano da Escola Estadual Maria Helena Sikorski Cerqueira César, situada na zona rural de Piedade, estão respondendo bem às atividades. Damázio afirma que a tipologia textual mais trabalhada ao longo do 8º ano é o texto prescritivo. "Receitas, manuais, regras de jogo e propagandas são os principais exemplos e a horta é o resultado prático de um Manual Horta Fácil, pensado e discutido pelos alunos, e transformado num livreto que cada aluno traz no caderno. A aula foi do caderno para o canteiro", diz.

O momento mais prático, que é o trabalho na horta, é deixado para os quinze últimos minutos das aulas. "É um tempo permitido também para aqueles que não estejam com atividade nos canteiros possam ler pelo jardim, adjacente à horta, e também cuidado pelos alunos."

Já a professora Elaine Garcia, da Escola Estadual Senador Vergueiro, na Vila Hortência, conta que desenvolve na sala de informática suas aulas de arte, que envolvem canto, dança e um projeto de orquestra, com alunos dos 10 aos 17 anos de idade. "A gente usa ali como se fosse um auditório, é onde deixamos os instrumentos preparados para ensaio. De maneira nenhuma seria a mesma coisa de estar na sala de aula. Também uso o espaço do refeitório para as aulas de arte que envolvem uso de guache e água. Por não ter salas apropriadas vamos para espaços destinados a outros fins", resume.

Também o professor Juan Lomardo, de geografia, recorre a outros espaços do ambiente escolar. "Trabalho bastante fora da sala e quando estou dentro procuro fazer coisas diferentes."

Juan conta que dá aula em várias escolas e que cada uma delas tem a sua particularidade. "Tem escola que a aula é feita embaixo de uma árvore, depende muito do prédio. Tem uma delas que fica num lugar bem alto e a gente consegue enxergar a cidade, então nessa as aulas de geografia são no pátio, onde podemos fazer a análise da paisagem da zona oeste de Sorocaba", conta. Trata-se da Escola Estadual Fernanda de Camargo Pires, na Vila Barão. "Os alunos gostaram muito. Toda vez que você propõe atividades assim, eles ficam animados, afinal na escola há menos cores do que no mundo", comenta Juan.

O professor observa que muitas vezes os teóricos tingem de belas palavras o processo educativo, mas tudo isso pode cair por terra no cotidiano escolar. "As aulas de geografia precisam muito do trabalho de campo e quanto mais você explora, mais valor educacional agrega à sua atividade."



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