SOROCABA E REGIÃO

Voluntários: eles escolheram ajudar o próximo


Heleonora, Eutilia, Nair, Bernadete, Nereide, Olívia, Vanda, Marina, Isabel, Mirna, Maria, Thirzah e Lucila formam a turma de dona Lurdinha. Elas se reúnem duas vezes por semana na Igreja Presbiteriana de Sorocaba para produzir enxovais destinados à doação e transmitir conhecimento sobre diversas áreas às mulheres da comunidade, no Clube de Mães.

Aos 85 anos de idade, dona Lurdinha (pouco conhecida por seu nome completo, Maria de Lourdes Gutierres) diz que está "na reserva". Ela comparece aos encontros, ajuda da maneira como pode, mas deixa a linha de frente do trabalho para as amigas. Afinal, já são décadas se dedicando a melhorar a vida de outras pessoas.

O trabalho em Sorocaba começou em meados dos anos 1960, quando Zélia Bueno Cruz iniciou as atividades do Clube de Mães. Lurdinha entrou para o grupo logo de cara e, entre idas e vindas por conta de compromissos familiares -- como ajudar a cuidar dos netos --, fez da igreja uma extensão da própria casa, um lugar onde se sente bem. "Nem imagino como seria a minha vida sem essa atividade. Às vezes, a gente não está disposta, mas vai mesmo assim. Eu vou, nem que vá mancando", relata.

A alegria que ela demonstra em ajudar o próximo é unânime entre quem se dedica ao voluntariado. O fenômeno tem explicação, como a psicóloga Maria Aparecida Leite Vaz de Arruda conta em reportagem na página 2. Ao dedicar seu tempo à filantropia, via de regra a pessoa recebe de volta bons exemplos, grandes histórias humanas e, o principal, uma nova maneira de enxergar a vida.

Lições pela pintura


Foi vendo as coisas por outro ângulo que a empresária Ligia Mazza, 53, aprendeu a conviver com as dificuldades para cuidar do pai, acometido pela doença de Alzheimer. A tarefa de dar banho nele, algo outrora impensável para a filha de um militar, tornou-se mais compreensível a partir das lições que aprendeu com o projeto que desenvolve na Vila dos Velhinhos de Sorocaba.

Em 2003, Ligia e sua sócia, Cristiane Oliveira, 49, começaram a frequentar o asilo para dar aulas de pintura em panos de prato. A atividade nasceu como uma ação social da empresa, mas buscando preencher o vazio sentido pela pessoa física, que já havia feito trabalhos voluntários na juventude e achava que era o momento de retomar. "Todo ser humano tem de doar o seu tempo", acredita.

Catorze anos e 30 alunos depois, a empresária não só se aperfeiçoou na técnica de ensinar as pinturas como, principalmente, aprendeu a conviver no universo de quem traz nas rugas a marca da idade -- e, muitas vezes, do descaso de parentes. Durante o momento quinzenal em que os idosos pintam, o pano de prato faz o papel de pano de fundo para a contação de histórias. "Eles conseguem se soltar, contar da vida. E realmente fazem parte da vida da gente."

A interação entre professoras e alunos não fica restrita às aulas. Ligia e Cristiane promovem festas em datas comemorativas (estas encampadas também pelo Rotary Club, do qual fazem parte), visitam internos que não conseguem participar das lições de pintura, sofrem com os eventuais falecimentos e vivenciam de perto as necessidades (às vezes até fisiológicas) de quem não é mais capaz de cuidar de tudo sozinho. "Eu consegui lidar melhor com a situação do meu pai por causa do meu voluntariado. O que eu vejo lá me ajudou numa situação em casa", diz Ligia.

Tudo junto e misturado

É dentro de casa que começa o trabalho voluntário do casal Tomás André dos Santos, 61 e Célia Regina dos Santos, 59. Há 11 anos, eles fundaram a comunidade Felicidade Down, que promove atividades e ajuda portadores da síndrome de down a se integrarem na comunidade. Casados há 39 anos, são pais de Bruna, 34, portadora da doença e a grande motivação para o surgimento da comunidade.

Com o trabalho desenvolvido, Tomás e Célia foram tornando-se, ao longo do tempo, referência no assunto em Sorocaba. Mas a vocação para o voluntariado começou bem antes do envolvimento com o mundo dos downs. Ambos desenvolvem trabalhos junto à comunidade desde a juventude, e hoje também atuam paralelamente em entidades diferentes: ele no Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci) e ela na Associação Pró-Ex de Sorocaba.

Com tantas atividades, é inevitável que a vida familiar se misture aos trabalhos voluntários. "A gente não pensa nisso, apenas vai fazendo todas essas loucuras de forma instintiva", conta Tomás. "É quase como um sacerdócio ou um vício que você não consegue largar e nem fazer outra coisa", complementa.

Um exemplo do tal vício é dado pela própria esposa, que mesmo numa sociedade em que as pessoas são cada vez mais condicionadas a não confiar em ninguém, ainda insiste em oferecer ajuda a desconhecidos. Ela conta ser comum, por exemplo, estacionar o carro junto ao ponto de ônibus para ofertar carona a algum idoso que esteja esperando a condução sob forte calor. "O compromisso do voluntariado virou o nosso tempo de vida. A gente acorda pensando nisso e vai dormir pensando nisso", diz Célia.

É dando que se recebe

A vida de quem leva o voluntariado a sério está longe de ser cômoda. Assumir um compromisso e dedicar tempo a ele significa abrir mão de atividades que poderiam ser consideradas mais prazerosas. Então, se por um lado é evidente que as ações dessas pessoas ajudam a transformar e melhorar a vida de outros seres humanos, por outro qual é a recompensa que elas recebem?

Quem pratica o voluntariado, de modo geral, não o faz com o objetivo de ser recompensado. Ainda assim, a resposta para a pergunta colocada acima está na ponta da língua dos voluntários, pois a retribuição às boas ações ocorre de maneira quase automática. "A vida não é mais a mesma, a gente aprende muita coisa. Sentimentos como orgulho, vaidade e prepotência deixam de existir", resume Tomás.

As transformações pessoais ocorrem paulatinamente e são pontuadas por momentos que tornam-se inesquecíveis para o voluntário. Como ver a alegria da mãe de uma portadora de Down ao perceber que a filha conseguia ir ao teatro com amigos, sem a companhia dos pais. Ou chegar adiantada à aula em que ensinaria pintura a um grupo de idosos e encontrá-los devidamente preparados, na porta da sala, aguardando ansiosamente sua presença. Ou saber que colaborou com a mãe adolescente, de apenas 14 anos de idade, que recebeu no enxoval o símbolo do carinho de uma comunidade disposta a ajudá-la.

Pessoas como Célia, Tomás, Ligia e Lurdinha, assim como tantos outros voluntários, não são super-heróis. São gente normal, com apenas um "superpoder": a capacidade de dispor um pouco da própria vida para melhorar a vida dos outros. Algo que a própria dona Lurdinha, do alto de sua larga experiência, resume de maneira tão simples quanto sublime: "Acho que todo mundo tem de fazer algum voluntariado. Se não fizer isso, fica fazendo o que em casa? Faz bem para a gente."



Ajudar os outros é ajudar a si mesmo

O voluntariado é uma via de mão dupla, que traz recompensas tanto a quem é ajudado quanto a quem ajuda. Dedicar-se seriamente a uma causa é algo que invariavelmente produz benefícios, que vão do bem-estar emocional até reflexos positivos na própria saúde. "Quanto mais você ajuda, menos você deprime", resume a psicóloga Maria Aparecida Leite Vaz de Arruda, 62 anos, coordenadora da Associação Voluntários de Sorocaba.
 
Ela explica que, de maneira geral, os voluntários são pessoas que já possuem uma série de compromissos, mas que ainda assim arrumam tempo para ajudar o próximo. O fenômeno é uma espécie de comprovação do ditado popular que diz que pedidos feitos a quem já é ocupado têm mais chance de serem realizados do que aqueles solicitados a quem tem muito tempo livre.
 
Seja pela sensibilidade aguçada em relação aos problemas alheios ou por traumas vivenciados consigo mesmo ou com pessoas próximas, quem se propõe a ser voluntário está disposto a contribuir com tempo, conhecimento e um pouco da própria experiência, seja profissional ou pessoal. "Você começa acreditando que está ajudando ao próximo, mas não pode imaginar o quanto pode receber em amorosidade, na sensação de bem-estar de ver o outro melhor", comenta a psicóloga.
 
Dentro dos limites

Por outro lado, é importante ficar atento aos limites do voluntariado. Envolver-se demais com uma causa ou tentar trabalhar em algo que não lhe dá prazer pode ser perigoso, do ponto de vista emocional. Quem não consegue ver crianças doentes, por exemplo, deve evitar engajar-se num hospital infantil -- ou, pelo menos, buscar áreas da instituição em que não haja contato com os pacientes.
 
Maria Aparecida alerta para a necessidade de a pessoa se sentir realizada ao fazer o trabalho voluntário. "Mesmo que você esteja lidando com a dor do outro, aquele momento não pode destruir você", comenta. Assim, é importante conhecer os próprios limites, gostos e capacidades, para oferecer a melhor ajuda possível e usufruir do bem-estar causado pela sensação de estar fazendo o bem. "Quando você sente que ajudou o outro, a pessoa mais premiada é você mesma. E a ajuda é maravilhosa, desde que você ajude e seja ajudado na relação de amor, ou seja, que faça o bem para o próximo e não mal para você."
 



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