SOROCABA E REGIÃO

Sorocaba tem apenas uma escola rural instalada no bairro Caguaçu


 
Localizada a cerca de 10 quilômetros do centro, a Escola Estadual Professor Dirceu Ferreira da Silva, no bairro Caguaçu, é a única unidade de ensino na zona rural de Sorocaba, mas com estrutura e métodos didáticos característicos da cena urbana. Ali, estudam cerca de 200 crianças, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. São filhos de agricultores, de caseiros de chácara, e sua rotina está diretamente ligada à terra, às plantações. A cidade tem mais três escolas que, conforme a Prefeitura, atendem alunos da zona rural mas não são consideradas rurais -- CEI 13 Aluisio Almeida, no bairro Brigadeiro Tobias, CEI 47 Betty Souza Oliveira, Ipanema do Meio, e EM Tadeusz Josefczyk, no bairro Genebra. Conforme pesquisa divulgada pela Universidade Federal de São Carlos, (UFSCar), nos últimos 15 anos, das mais de 100 mil escolas rurais que existiam no Brasil, 17 mil foram fechadas, o que representa mais de 1,2 milhão de pessoas sem escola ou obrigadas a estudar nas cidades.
 

Sorocaba, em 2002, tinha as mesmas unidades já citadas, mas havia classes vinculadas, dentro de fazendas. Essas sim tinham características rurais. E o que isso significa? Que se por um lado eram mais familiares e aconchegantes, pelo professor conhecer bem as famílias e estas terem um envolvimento maior com a escola, por outro tinham alunos de diversos anos assistindo aula em uma mesma classe e docentes exercendo todas as funções da unidade de ensino. Geralmente, os estudantes de escolas rurais se deslocam de ônibus ou a pé e percorrem grandes distâncias até a escola. Em alguns casos, permanecem mais tempo no caminho do que na sala de aula.
 

Conforme o professor Luiz Bezerra, docente do Departamento de Educação (DEd) da UFSCar, coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação no Campo (Gepec) e do curso de Pedagogia da Terra da Instituição, agora o grande desafio é interromper o fechamento e ainda criar novas escolas no campo, mas com toda a infraestrutura necessária. "Quase não há computadores, bibliotecas, laboratórios nas escolas rurais", relata o docente.
 

Os mais afetados por essa situação são os que vivem em assentamentos rurais. Dados de 2014 apontam que entre os jovens das 923.609 famílias que viviam em 8.763 assentamentos no Brasil, 15,58% não foram alfabetizados; 42,27% cursaram apenas até a antiga 4ª série; 27,27% concluíram o ensino fundamental; 7,36% fizeram uma parte do ensino médio e 6,04% concluíram a educação básica. A falta de incentivo e de estrutura justifica esses números.
 

O professor Bezerra conta que a luta por uma educação específica para as pessoas que vivem no meio rural é do início do século 20, mas foi a partir da década de 1990 que ganhou força com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). "Os movimentos sociais têm lutado por uma educação específica e, por meio do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, conseguiram vários cursos, como Direito, Pedagogia, Agronomia, dentre outros. Hoje 40 universidades têm cursos de licenciatura em educação do campo", diz.


Ótimo resultado conquistado no Idesp




Em Sorocaba, as escolas que atendem estudantes da zona rural vivem a mesma rotina daquelas que estão na zona urbana e seguem o currículo das respectivas redes, sendo estadual ou municipal. Na Escola Estadual Professor Dirceu Ferreira da Silva, no bairro Caguaçu, o que a diferencia das escolas da zona urbana é o fato de não ter sistema de esgoto, ou seja, possui fossa e a água chega pelo caminhão-pipa. A localidade também colabora, afinal fica às margens da rodovia Emerenciano Prestes de Barros (que liga Sorocaba a Porto Feliz), quilômetro 7,5.



Também a distância entre a escola e a moradia dos alunos ajuda nessa característica própria da escola rural. O bairro Caguaçu é a maior região rural de Sorocaba, então alguns alunos vivem até 14 quilômetros afastados da unidade de ensino, mesmo morando ali no bairro. Aquela região está perdendo aos poucos a sua característica e sendo "engolida" pela área urbana, já que próximo ali foi construído um condomínio, o Carandá, e junto com ele virão comércios. Mesmo assim, ainda há chácaras, sítios e terrenos destinados ao cultivo de frutas, verduras, legumes e flores, que são vendidos para o Ceagesp.



Por ser grande, o Caguaçu é dividido por regiões. Os estudantes são oriundos da estrada dos Martins, estrada do Paiffer, Granja Mizumoto, estrada do Yabiku e estrada do Netinho (que é o local mais distante da escola, são 14 quilômetros, ou seja, mais distante do que da escola até o centro da cidade).



Conforme a diretora, Sandra Cristina Consul, que trabalha no local há 22 anos, ali o estereótipo não se faz presente. "Ao contrário do que as pessoas imaginam, de que na área rural são crianças mais pobres e por isso malcuidadas, nossos alunos são muito saudáveis, pois se alimentam melhor do que aqueles da zona urbana. Eles tomam leite de vaca mesmo e não industrializado, e comem mais legumes, verduras e frutas, então isso reflete no desenvolvimento e qualidade de vida deles".



Já no quesito estrutura, a escola está longe de ser aquela onde uma professora dá aula para várias turmas. As salas de aula são divididas por séries e aquela unidade conta inclusive com laboratório de informática. A diretora Sandra, que recebeu a reportagem na quarta-feira, contou que a escola é reconhecida pela qualidade do ensino e estava muito feliz por ter acabado de receber a informação de que a escola ultrapassou a meta do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp), que era de 4,93, tendo alcançado 5,60. "A escola é conhecida por isso. Temos criança que mora em condomínio, que o pai é piloto, mas prefere que estude aqui, pela qualidade do ensino", orgulha-se.



Na escola Dirceu Ferreira estudam meninos e meninas que sonham em seguir profissões ligadas à terra ou aos cuidados com os animais, cujo campo de trabalho é muito amplo, como agronomia, engenharia agrícola, veterinária, entre outras.



Todos orgulham-se muito de seus pais e amam ajudá-los. Os olhos brilham ao contar o que fazem e o que pretendem ser "quando crescerem". Lucas George Boldrin de Oliveira, 6 anos, conta que costuma ajudar muito o pai nas horas que está em casa. "Meu pai planta um monte de plantas, como cactus e flores, eu ajudo, mas um dia quero comprar as minhas sementes para também plantar", disse ele, que mora na estrada do Paiffer, local mais próximo da escola.



Guilherme França de Oliveira, 6 anos, afirma que seu pai costuma plantar alface, brócolis e couve. "Eu quero comprar um caminhãozão", planeja ele, que mora na estrada dos Martins.



Outro que adora mexer na terra é Pedro Henrique de Oliveira, 6 anos. "Meu pai planta melancia, alface, cenoura, beterraba, muitas coisas. Um dia quero trabalhar com meu tio Tato", disse ele, que também mora na estrada dos Martins.



Já Isabela Janaina de Oliveira Carline, 6 anos, afirma que seus familiares plantam tudo de roça: mandioquinha, cenoura, tomate, quiabo, morango... Seu avô, o sr. Carline, é o maior produtor de alface do bairro. Isabela é uma das crianças que mais demora para chegar na escola. Como mora na região do José Leme, perto do Netinho, ela leva cerca de 30 minutos no ônibus escolar para percorrer os 14 quilômetros de distância. 



Evento internacional aborda o tema na UFSCar



Visando reunir pesquisadores da área e trocar experiências para avançar nas ações e lutas relacionados à educação no campo, entre os dias 26 e 28 de julho de 2017 acontecem simultaneamente na UFSCar o I Seminário Internacional e o IV Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas sobre Educação no Campo. Serão discutidas as políticas educacionais para o meio rural, sob o panorama geral da educação no campo no Brasil e na América Latina, com destaque para Cuba e Colômbia. A questão da dominação de classes também será tratada. Os interessados em apresentar pôsteres, resumos expandidos, relatos de experiência e trabalhos completos podem se inscrever até o dia 31 de março, por meio do site www.semgepec.ufscar.br. Ouvintes podem se inscrever até o início do evento.




 



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