ARTIGOS

Click...click...clicks


José Milton Castan Jr.

Tensão! Sempre é momento de preocupação quando o avião se aproxima da pista de pouso, e naquela aterrisagem havia diluído, entre o clima seco e gelado do interior do avião, também um adicional clima de medo. Eu voltava de viagem do exterior e o voo de doze horas teria transcorrido normalmente, senão fosse o enorme estrondo pela madrugada que acordou a todos passageiros. A todos! Menos eu, que estava em pé ao fundo do avião...insone. Seguinte ao ensurdecedor barulho, a cabine ficou por uns dois ou três segundos totalmente escura, o que se desfez quando as luzes de emergência situadas no assoalho acenderam, e pouco tempo depois a iluminação voltou.

Logo pelo alto-falante o comandante explicou que a aeronave havia sido colhida por um raio e que, apesar de ser um fato raro, tudo estava normal. Fui, mais ou menos, me habituando à tal normalidade e a viagem seguiu assim até nos aproximarmos do pouso. Mas, em particular para mim, este momento tem significado diferente, pois a cada novo pouso meus demônios interiores se acordam para me lembrar daquele outro ocorrido anos atrás em Porto Alegre: chovia muito e ao tocar o solo o avião estremeceu de tal maneira que as portas dos maleiros se abriram, bagagens caíram e gritaria histérica. Jamais esqueço daquela manhã.

Ao se aproximar do Aeroporto Internacional de Guarulhos nosso avião cumpriu preciosamente sua missão, o pouso foi suave, e já no final da pista, todos (inclusive eu) bateram palmas. Alívio!

Voltei à realidade quando, com avião ainda taxiando para se aproximar do finger e desembarque, escutei um click, seguido de outro e logo uma sinfonia caótica de clicks que insistiam desobedecer ao comando luminoso de manter os cintos afivelados.

Ahh! Como este momento sempre me importunou. Aliás, pra mim no mundo, existem apenas duas categorias de pessoas: as classe A (Afiveladas) e as classe IDCAM (Incautas Desafiveladoras de Cintos com o Avião em Movimento). Jamais havia entendido motivo pelo qual em qualquer voo, nacional, internacional, de turboélice, Boeing 777 ou teco teco as pessoas têm este comportamento irracional: desafivelar os cintos, levantarem, abrirem o bagageiro e ficarem no corredor...esperando!

Esqueci de falar que na poltrona da janelinha ao meu lado, minha companheira de viagem havia sido uma velhinha. Pouco falamos durante o voo e menos ainda naquela hora do raio. Logo após o pouso a classifiquei como nobre representante dos IDCAM, e assim que nosso avião parou ao lado do finger ela se levantou. Fiz que não vi. Ela com o dedo chuchou meu ombro e pediu licença. Afastei ao máximo as pernas. Ela tentou passar, não conseguiu. Olhei para ela, olhei para a multidão que já estava em pé com valises e maletas às mãos, voltei olhar para a velhinha como quem diz: ""Não dá!"", mas ela insistiu, agora com duas cutucadas de joelho, e não tive outra alternativa que não fosse levantar, ficar espremido entre um careca e um gordinho que suava, e ela, acredite, conseguiu ficar bem à minha frente. Pensei: ""Povo ansiogênico! Mundo dos apressados, essa coisa do imediatismo contemporâneo"".

Mas como disse, jamais havia entendido a falta de racionalidade do comportamento coletivo e quase unânime dos passageiros em desafivelar os cintos e ficarem em pé no corredor...

Entalado aguardando a fila andar acabei por entender: há e sempre haverá uma força interior comum a todos nós, um inconsciente coletivo de autopreservação, denominado pelos amiguinhos da filosofia de ""conatus"". Adiantar e tentar sair o mais rápido do avião é a melhor maneira de termos certeza que nos manteremos vivos e bem.

Com meu joelho dei um cutucão na poupança da velhinha pra ela andar!

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br


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