ARTIGOS

Um vizinho do barulho


José Milton Castan Jr.

Precisava dar o troco. Desforra. Uma vingança mesmo.

Domingo. Cinco da manhã. E desde antes da meia-noite do sábado estava acordado. Ou melhor, fora acordado pela bagunça na casa vizinha. Não bastasse o gosto musical prá lá de duvidoso que retumbava alto; não bastasse o vozerio que entrava no seu quarto, e tão nítido que dava garantias que, ou a bebida impulsionava a discussão inútil, ou inútil eram per se; havia ainda palavrões dignos da "casilla del diablo" (só pra não denegrir a casa da tia Maria Joana).

A primeira providência foi chamar uma viatura. Evitou ele mesmo ir falar com o vizinho e sua trupe indolente. Foi por volta de uma da manhã. A polícia chegou e ele ficou por trás da porta escutando. Não queria se expor. Da vez anterior o resultado não foi satisfatório. Justificativas, as mesmas:

-- O som não está assim tão alto seu policial.

Ou:

-- Não admito reclamação de vizinho! quase abriu a porta e falar-lhe umas verdades.

A polícia foi embora, não sem antes ele escutar:

-- Claro, vamos maneirar no barulho teve certeza que a coisa iria longe. E foi.

Duas da manhã sentado na cama só pensava numa vingança. Não uma vingança tipo: "seu incivilizado, que vá morar no mato!", precisava de algo bem acima deste nível. Algo sutil. E já havia pensado em, no dia seguinte, contratar uma banda tocando "Geni", bem em frente à casa do barulho, às oito da manhã. E ele estaria regendo a banda e cantarolando: "Joga pedra na Geni, joga pedra na Geni, ela é feita pra.... " Claro que não era "pedra" que entoaria..., e a visão do vizinho só de cuecas na calçada a blasfemar seria momento "prime".

Achou que novamente estaria se expondo.

Lá pelas três da manhã, matutava. Pensou num trio elétrico subindo e descendo a rua. Os saltimbancos dormindo o sono dos injustos, e quando passasse bem em frente aumentaria o volume potência dez e tudo tremeria. Desistiu, onde encontrar um trio elétrico para funcionar às nove da manhã?

Aquilo era demais. Três e meia e nada indicava que iriam dormir.

Pensou no seu Vavá e dona Flora, os vizinhos aposentados. Certamente estariam sentados na cama, insones, mas sem coragem de incomodar quem os incomodava. Não se prestavam a isso.

Teve uma ideia brilhante. Iria contratar um caminhão carregado de "cama de frango" (adubo feito de titica de galinha misturada com areia) e mandaria bascular em frente à garagem dos ruidosos. Ficaria atrás da janela vendo a indignação, quando lá pelo meio dia acordassem e não conseguissem sair de casa atrás de mais cerveja!

Melhor não. Sutil. Precisava de algo fino.

Ficou aliviado quando lembrou que o jovem casal e os gêmeos da casa do lado estavam viajando.

Quatro da manhã e de cada três palavras quatro eram palavrões. Decidiu ir ter com eles, saberia como espinafrar dignamente.

A esposa, providencialmente, conseguiu convencê-lo contrário.

Quatro e vinte. Ficou a pensar quantas casas na cidade teriam vizinhos tão inoportunos quanto ele. E quantas casas que foram "brindadas" com um boteco como vizinho violando a lei do silêncio e violentando o sagrado sono. Solidarizou-se com eles. Pensou em criar uma associação: "Associação dos Vizinhos Incomodados", cujo lema seria "Incomodados não! Os incomodantes que se mudem". Seria o presidente da Assovin e ficaria toda noite de plantão. Bastasse um membro da Assovin acioná-lo e levaria a Kombi com alto falante em frente ao vizinho babaca, e soltaria palavras de ordem: "Psiu psiu, ou vai prá..."

Quatro e quarenta: Logo cedo iria comprar um chip de celular, um número desconhecido e ligaria minuto a minuto até acordarem. E passaria a próxima noite ligando, ligando... Besteira, tirariam o telefone do gancho na terceira tentativa.

Cinco da manhã. Touchê! A vingança que precisava: saiu do quarto, foi até o escritório, ligou o computador e começou a escrever.

Escreveu uma crônica que começava assim:

Precisava dar o troco...

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br



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