SOROCABA E REGIÃO

Em Sorocaba, criador da Escola da Ponte repudia ensino tradicional


 
 
 
 
Há 40 anos, o professor José Pacheco dava aulas numa escola de Portugal com perfil problemático. Alunos agrediam professores e o aproveitamento escolar era péssimo. Pacheco uniu esforços com duas professoras que, segundo ele, queriam ser competentes e éticas. E o trio transformou a escola em um centro mundial de educação.
 
A instituição e o projeto transformador, que receberam o nome de Escola da Ponte, introduziu um modelo de ensino que rompeu com o tradicional e inspirou iniciativas semelhantes em vários países do mundo, inclusive no Brasil.
 
De aproximadamente 40 professores, apenas os três abraçaram o projeto Escola da Ponte. Dos três, as outras duas pessoas faleceram e Pacheco, aos 65 anos, é o único sobrevivente. Os demais professores continuaram a dar aulas da forma tradicional.
 
Os fundadores da Escola da Ponte partiram da pergunta: "Se as os professores são competentes, se dão as aulas bem dadas, por que há alunos que não aprendem?"
 
A resposta foi identificada por pesquisadores da educação que reuniam sociólogos, psicólogos, antropólogos, pedagogos. E ela foi desconcertante, como explica Pacheco: "Se eu dava aula e eles (alunos) não aprendiam, eles não aprendiam porque eu dava aula."
 
Pacheco disse que os fundadores da Escola da Ponte entenderam que está na figura do professor a decisão de ser competente e ético. E analisa: "se o modo como eu trabalho não ensina a todos, se a maneira como eu trabalho provoca exclusão, ignorância, eu não posso continuar a trabalhar da mesma maneira. Eticamente, eu falho."
 
Ele recorda que há 40 anos havia carência de teoria sobre essas questões. Havia muita experiência no trabalho de dar aulas e várias perguntas. Então, por intuição e por amor aos alunos, as respostas foram dadas durante oito anos. Ao fim desse período, toda a escola estava dentro do projeto Escola da Ponte.
 
Pacheco esteve no Sesc Sorocaba no último dia 4 para a palestra "A construção do saber: ambientes interativos e democráticos nas escolas". O evento foi uma promoção da Secretaria da Educação.
 
 
"Cuidar das pessoas"
 
 
Pacheco conta que foram muitas as mudanças: "Primeiro nós percebemos que tínhamos que cuidar das pessoas, dar-lhes importância, conferir-lhes autoridade, dar-lhes uma boa formação pessoal, social. As pessoas precisavam reelaborar a sua cultura."
 
As alterações eram necessárias, na sua análise, porque o ensino reproduzia um modelo (constituído de aulas, turmas) que vinha do século 19. Na sua opinião, esse parâmetro "não faz sentido nenhum no século 21". E isto o leva a concluir: "Nós hoje temos alunos do século 21 com professores do século 20 a trabalhar como no século 19. E o resultado está aí."
 
O projeto Escola da Ponte introduziu mudanças lentamente, sem pressa, durante oito anos. Ao fim desse período, a escola não tinha aulas, turmas, série, ano, prova, nada desses ingredientes do ensino tradicional.
 
"Tínhamos outras coisas", descreve Pacheco. "E o que aconteceu foi que a escola que antes era perigosa, era marcada por violência, por ignorância, hoje é a melhor escola do meu país. É a melhor no Enem, é a melhor em tudo, mas sobretudo é a melhor nas pessoas."
 
Segundo ele, "um professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é." E os professores da Escola da Ponte, acrescenta, transmitiram aos jovens estudantes os valores da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade. "De modo que toda a cidade mudou, e eu fui prefeito da cidade", concluiu, referindo-se à Vila das Aves, local onde fica a Escola da Ponte, em Santo Tirso, próximo à cidade do Porto.
 
 
"Numa aula nada se aprende"
 
 
Perguntado sobre quais são as mudanças propostas pelo modelo da Escola da Ponte, Pacheco explica: "As pessoas passam a ser pessoas honestas. Honestas por quê? Aula, turma, tudo isso não tem fundamento nenhum."
 
E ele decreta: "É um escândalo ainda haver aula no século 21. É um absurdo. E portanto o que distingue as pessoas (no novo modelo) é que elas são inteligentes, amam os seus alunos e são honestas. Quando veem que esse modo não resulta (não funciona), fazem diferente e para melhor."
 
Sobre como os alunos aprendem, explica: "Isso é uma questão técnica. Eles trabalham em projetos, produzem roteiros de pesquisa, desenvolvem pesquisas. Professores são tutores e mediadores. Ao fim de um certo tempo em que eles selecionam informação a partir dos problemas na cidade, sociais e pessoais, produzem conhecimento."
 
E os alunos não fazem prova, diz Pacheco: "Prova não prova nada, é um disparate. Pegam esse conhecimento e põem a serviço da comunidade. Isso é avaliação. E ao porem conhecimento numa ação, desenvolvem aquilo que profissionalmente se chama competência. Ou seja, aprendem efetivamente. Porque numa aula nada se aprende. Eu repito: numa aula nada se aprende. E provo isso."
 
 
Viabilidade no Brasil
 
 
Para quem pergunta se o modelo da Escola da Ponte teria viabilidade no Brasil, Pacheco ensina: "Não se pode copiar, não pode haver réplicas nem imitações." No entanto, ele acompanha mais de 200 escolas brasileiras inspiradas na escola portuguesa. "E que são escolas com excelência acadêmica e inclusão social", compara.
 
Na sua visão, o Brasil tem tudo o que precisa: "Tem excelentes profissionais nas escolas, tem bons teóricos, tem maus gestores que gastam o erário público em projetos sem sentido."
 
Morando atualmente no Brasil, ele atua voluntariamente e gratuitamente num grupo de trabalho do Ministério da Educação com a missão acompanhar projetos de ensino que valham a pena: "encontramos 178 escolas quase todas inspiradas no modelo da Ponte, inspiradas, não copiam."
 
E para quem pergunta se Sorocaba pode seguir idêntica inspiração, Pacheco diz que a cidade "pode fazer uma escola como deve ser". Para isso, acrescenta, é preciso que haja um poder público que tenha a "coragem" de fazer o que é preciso: "que é dar apoio àquelas pessoas que, para além de compreender que o modo como trabalham não ensina a todos, modificam o seu modo de trabalhar."

"Educação é por imitação, é por exemplo"

Em entrevista, José Pacheco admite que subverter a ordem de ensino tradicional é muito difícil: "É sofrimento puro, mas que vale a pena. Vale a pena ver que os jovens aprendem e que são felizes." Veja trechos da entrevista:
 
 
Cruzeiro do Sul - A proposta da Escola da Ponte também não é subverter uma cultura de ensino que vem do século 19? Isso não é difícil?
 
José Pacheco - Muito difícil, é sofrimento puro, mas que vale a pena. Vale a pena ver que os jovens aprendem e que são felizes. Nenhum professor põe em causa esse princípio. Eu pergunto como é que continuam a fazer da mesma maneira? E continuamos a ter o índice de desenvolvimento da educação básica baixo. Continuamos a ter os professores no psiquiatra, continuamos a ter violência. É isso que querem? Continuem com essa escola que está (aí) então.
 
CS - O que esse modelo inspirado na Escola da Ponte tem para dar certo num país como o Brasil, com histórico de grandes problemas na educação?
 
José Pacheco - É no Brasil que está a surgir a melhor educação do mundo. É no Brasil que estão os melhores projetos e os piores projetos. E o que é preciso é apoiar, acompanhar e avaliar os projetos de mudança de pessoa. Que as secretarias da Educação percebam que o modo como as escolas funcionam não resultam, não servem, e que tenham a coragem para (entender), com muita responsabilidade, que as coisas não acontecem de um dia para o outro.
 
CS - Mudanças como essas têm que ser encampadas prioritariamente pelo setor público?
 
José Pacheco - Eu não distingo. Para mim, escola pública é aquela que a todos acolhe e a cada um dá a resposta, independentemente de ser de origem estatal, federal, municipal ou particular. O que acontece é que as escolas públicas brasileiras têm projetos políticos pedagógicos que não cumprem na prática. É triste ver o poder público a permitir que isso aconteça.
 
CS - Para os pais também há um desafio. Os pais estão acostumados à cultura de ensino tradicional, que produz os resultados conhecidos. A maioria das escolas não têm experiência de ver cidadãos formados no sistema inspirado pela Escola da Ponte. Os pais vão ficar com dúvida.
 
José Pacheco - Têm todo direito de ficar com dúvida. Querem a escola para os filhos que foi a escola deles. É a chamada Síndrome da Gabriela: eu nasci assim, eu fui sempre assim. Não tem que ser. Os pais são pessoas inteligentes e amam os seus filhos, querem o melhor para eles. Os professores são pessoas inteligentes e amam os alunos. Se os pais forem esclarecidos e as pessoas tiverem competência, os pais aceitam e, quando veem os resultados, apóiam e defendem. Foi isso o que aconteceu na Escola da Ponte. Ela é dirigida pelos pais. Não tem diretora. São os pais, a comunidade que dirige a escola.
 
CS - Pelo tempo decorrido, vocês já têm essa experiência em Portugal: adultos formados nesse novo modelo. Como são esses adultos profissionalmente e como cidadãos?
 
José Pacheco - São pessoas bem sucedidas, bem integradas, politicamente bem formadas, generosas, solidárias, tudo aquilo que nós transmitimos. Porque educação é por imitação, é por exemplo. E, portanto, hoje eles vivem numa cidade em que dá gosto viver.
 

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