ARTIGOS

Na real: e agora, José?


José Milton Castan Jr.
 
Acho que essa você conhece, caso não, lá vai:
 
Madrugada e o comandante do segundo maior navio de guerra dos Estados Unidos escuta no rádio:
 
-- A-853 falando. Por favor, mude seu curso para 15º ao sul, para evitar colidir conosco! Vocês estão vindos diretos em nossa direção. Distância 25 milhas náuticas.
 
Ao que o comandante responde:
 
-- Nós que recomendamos que vocês mudem seu rumo 15º ao norte para evitar a colisão!
 
E a conversa segue:
 
-- Negativo. Repito, por favor, mude seu curso 15º ao sul, para evitar colisão.
 
-- É o capitão Joseph Smith de um navio dos Estados Unidos da América falando: Insisto desviem vocês seu rumo 15º ao norte para evitar colisão.
 
-- Não consideramos isso realizável, nem conveniente. Sugerimos que desviem seu rumo 15º ao sul para evitarmos colisão.
 
-- Sou capitão do USS Montana da marinha americana, segundo maior navio da frota dos Estados Unidos, escoltado por dois couraçados, seis contratoperdeiros, quatro submarinos e embarcações de apoio. Não sugiro, mas ordeno que mude sua rota 15º para o norte, ou seremos forçados tomar medidas necessárias para garantir a segurança deste navio.
 
E o capitão escuta como resposta:
 
-- Lhes fala Juan Manuel Salas, somos ao todo duas pessoas, nossa escolta é de um cachorro, nossa comida, duas cervejas e um canário que agora está dormindo. Não estamos navegando, vez que estamos em terra firme. Falo do farol A-853 na costa da Galícia. Por isso insistimos que o melhor, mais seguro e recomendável é que desviem sua rota 15º ao sul para evitar coliderem contra as pedras.
 
A conversa acima jamais aconteceu, até porque os cinco navios "Montana" projetados para a segunda guerra mundial, nunca foram produzidos. Joseph Smith, codinome de minha criação e apenas pra fazer sentido ao que vem mais abaixo. Ainda assim fácil avaliar a reação do comandante.
 
Soberba, ou seja, a arrogância de imaginada superioridade (e aqui não tem nada de antiamericanismo - apenas como exemplo), frente à realidade.
 
Ideal e o que idealizamos ocorre em nossa imaginação, e por vezes sem compromisso com o real. Infinito é limite da imaginação. Por outro lado, real é real: concreto, palpável e factível. E muitas vezes, duro como rocha.
 
Viver ilusoriamente consiste viver no mundo imagético da idealização, e cuidar não esbarrar com a realidade.
 
E se não bastasse, há ainda meias porções do imaginado que não pensamos:
 
"Algo pensa em mim"!
 
Mas, e na vida sempre haverá certeiros "mas", tempos quaisquer iremos trombar com a realidade; por descuido, ou pela própria inflexível condição do real, então...
 
Então deparamos, por exemplo, com nossas incapacidades, pequenices, fragilidades, incompletudes, futilidades, e por aí vai.
 
E agora, Joseph Smith? Ou melhor, nos perguntaria Drummond: E agora, José?
 
"A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora você?
 
Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou. E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora?"
 
Bem, respostinhas não compõem o cardápio do dia. Apenas reflexões.
 
Quais? Você já passou por elas. E nem se deu conta?
 
Na real: José, e agora?
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor
 www.psicastan.com.br
 



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