ARTIGOS

Conversando com seus botões


José Milton Castan Jr.
 
E como não havia decidido ainda se sairia, continuava enroscado. E se fosse sair, com qual sapato? Consumia-se em dúvidas quando escutou uma voz perguntando:
 
-- Estamos de saída?
 
E ouviu como resposta:
 
-- Sei não, ele ainda tá pensando se vai ou não vai.
 
E a conversa continuou:
 
-- Para onde você acha que ele vai nos levar?
 
-- Acho que irá falar com ela!
 
Com os sapatos pretos à mão, Raulzinho intrigado apurou ouvidos, e a conversa seguia:
 
-- E como estão os botões aí de baixo? - perguntou a primeira voz, que para Raulzinho parecia, a tal voz, vir de perto de sua garganta.
 
-- Estão por dentro da calça! - falou a outra, e esta voz lhe parecia vir mais abaixo, junto ao peito.
 
Já em frente ao espelho, Raulzinho titubeava agora nos aprumos do cabelo, e foi então que se deu conta da prosa entre os botões de sua camisa; o botão debaixo perto do coração - o botão cordial, e o botão mais de cima perto da garganta - o botão coloquial.
 
Botão coloquial: Pois é, ele nem deveria ir!
 
Raulzinho franziu a testa.
 
Botão cordial: Mas ele gosta dela!
 
Botão coloquial: Ah é! Por mim, eu não iria.
 
Raulzinho acena positivamente com a cabeça.
 
Botão cordial: Por causa de uma discussão?
 
Botão coloquial: Não apenas pela discussão, mas pelo que ela fez!
 
Botão cordial: Ela tem sentimentos.
 
Raulzinho meneia a cabeça, também fica em dúvida.
 
Botão coloquial: Não foi a primeira vez!
 
Botão cordial: Ela teve motivos, e lembre-se que ele também já fez a mesma coisa!
 
Raulzinho recua ligeiramente a cabeça e olha espantado.
 
Botão coloquial: Mas daquela vez ele tinha razão!
 
Raulzinho franze as sobrancelhas e parece concordar.
 
Botão cordial: Você é sempre tão racional!
 
Botão coloquial: E lá vem você de novo, botão emocional!
 
Botão cordial: Algo errado em ser emocional?
 
Botão coloquial: Prefiro seguir aquilo que me parece racional.
 
Agora Raulzinho pensa em não mais sair.
 
Botão cordial: Eu não arriscaria, iria sem pensar: seguiria meu coração.
 
Raulzinho novamente em dúvida.
 
Botão coloquial: Balelas! É tudo muito simples, basta somar dois e dois e o resultado será sempre o mesmo.
 
Botão cordial: Nem sempre, pois o meu sete pode ser o seu dez.
 
Botão coloquial: Uau! Filosofia barata!
 
Botão cordial: Imagine, sou sensível.
 
Botão coloquial: Eu inteligível!
 
Raulzinho viu-se obrigado a intervir:
 
-- Que saco! - esbravejou - vocês dois discutem, discutem, mas não chegam a conclusão alguma. Vou ou não vou?
 
Botão cordial: Sabe o que é Raulzinho: eu e o botão coloquial quase sempre não concordamos, nossos mundos são diferentes.
 
Botão coloquial: Raul: a lógica é o seguro das boas decisões.
 
-- Pode ser - concorda Raulzinho
 
Botão cordial: E desde quando somos movidos apenas pela lógica? Não se esqueçam que um dia fomos apenas sentimentos.
 
Botão coloquial: Raul ouça-me: esquece! Esse botão vive no mundo onírico, só sonha!
 
-- Sei não, acontece que no fundo eu a amo. Acho que vou, e ainda pedirei desculpas!
 
Botão cordial: Touchê! Qual foi a última coisa que pensou ontem à noite? Foi nela. Teus sonhos foram com quem? Com ela. A primeira coisa que pensou pela manhã? Foi nela.
 
Botão coloquial: Será que ela pensa o mesmo?
 
Raulzinho com novas dúvidas.
 
Toca o telefone e Raulzinho desperta daquele devaneio.
 
-- Oi amor! Tava aqui pensando em você. Sim, em meia hora. Beijos. Também te amo!
 
Raulzinho abotoou o blazer e abafou as vozes da razão e emoção, com a certeza que não se trata disto ou daquilo e sim disto e daquilo, ou melhor, a genialidade do "e" em oposição a tirania do "ou".
 
Escutei alguém aí perguntar se foram felizes pra sempre? Não importa, mas que aquele encontro foi especial...ahhh isso foi mesmo!
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br
 



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