ARTIGOS

Presente de aniversário


José Milton Castan Jr.
 
Segunda-feira última o dia corria normal... quase:
 
Ao chegar em casa depois do trabalho, ainda na porta de entrada encontro uma correspondência, era da operadora do meu cartão de crédito. Reluto em abri-la. Todo mês é assim. Lembrei, porém, que era dia vinte e dois, e a fatura chega normalmente lá pelo dia dois ou três. Fiquei aflito. Ainda com a carta fechada da operadora na mão, subindo a escada do hall de entrada, todo preocupado, e... surpresa:
 
Parabéns pra você, nesta data... Ana com um bolo na mão, a caçula Gaby, meus filhos e noras, alguns amigos queridos, meu inseparável amigo Seu Malaquias e sua esposa D. Maria Helena.
 
Coloco a carta da operadora numa estante, e meio sem jeito vou batendo palmas e cantando junto... muitas felicidades muitos... Assopro a velinha (as velinhas, e eram quase sessenta).
 
Por uns instantes me esqueço da correspondência.
 
Beijos, abraços e felicitações. E a cada cumprimento um presente. Seu Malaquias me deu abraço carinhoso, e retribui da mesma forma. Mas, não me deu presente algum. Pensei que, sendo Seu Malaquias aposentado e nesta época de carestia, tenha optado pela economia material, e por fartura afetiva. Sempre Seu Malaquias. Porém agora, puxando a memória, acho que Seu Malaquias falou algo como "o presente vem depois".
 
Ao final dos cumprimentos fui até a estante e quando ia pegando o envelope da operadora de cartão de crédito, Ana me chama com um pratinho de bolo na mão. Bolo de chocolate com cobertura de ganache. Irresistível.
 
Lá pelas tantas estávamos: Juliano um jovem empresário, Marquinhos vizinho, Seu Malaquias e eu sentados no sofá, quando o assunto enveredou para política, e mais um pouco para a economia, e eu que já havia esquecido, agora via de longe a correspondência sobre a estante. Quis levantar e acabar logo com aquela agonia, mas desisti, pois Seu Malaquias parecendo ler meus pensamentos falou:
 
-- Você está um pouco preocupado?
 
-- Imagina meu amigo! Estou muito feliz com a festa surpresa.
 
-- Lhe cobra, um ano a menos, o tempo? - poetava Seu Malaquias.
 
-- É..., sempre o inexorável tempo. - eu, meio desatento, tentava responder à altura.
 
Na verdade, depois deste trololó, me chamou atenção a condescendência não usual de Seu Malaquias. É tido e sabido que Seu Malaquias não tem lá muita complacência pelo coloquial e por rasos pensamentos. Aliás, não seria incomum se houvesse me dado uma das suas tradicionais rebocadas malaquianas.
 
Fim de festa, pessoal indo embora. Despeço-me de Seu Malaquias que fala:
 
-- Meu presente está em cima da estante.
 
Entrei e fui direto à estante, mas o tal presente não estava lá.
 
Chequei se não houvesse caído, ou que estivesse escondido. Sem presente. E pior dei de cara com a correspondência da operadora do cartão de crédito. "Puxa", pensei, "do presente do Seu Malaquias para a carta da operadora. Dura realidade!"
 
Peguei o envelope. O logotipo azul, como sempre me causa angústia. Nunca tive bons relacionamentos com cartões de crédito, limites de cheque especial...
 
Finalmente abro-a um tanto aflito, e o conteúdo da correspondência: "Prezado José: parabéns pelo seu aniversário. Como presente especial nesta importante data, e em consideração aos tantos anos de fidelidade informamos que seu limite de crédito foi reduzido pela metade. Desejamos assim que consuma menos e conscientemente, que economize e guarde dinheiro para as horas que não mais tiver cartão de crédito!"
 
E se não bastasse a surpresa do teor, vinha assinada como:
 
"Do amigo: Malaquias"
 
Não gostei da trolada. Mas depois dei risadas imaginando o Seu Malaquias conseguindo um envelope com o logotipo da operadora, escrevendo a carta, colando, deixando na porta de casa...
 
Cartão de crédito reduzindo limite pela metade pra alguém gastar menos! Só Seu Malaquias mesmo!
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br
 



OCULTAR COMENTÁRIOS
comments powered by Disqus